Seria mais um ótimo e autêntico disco de samba não fosse feito por Elza Soares. Sim, porque onde ela enfia a voz... Mas o mérito de ‘‘Trajetória’’ vai além de simplesmente ser trabalho de uma intérprete marcante - uma estilista, na verdade. Serve como uma espécie de cartilha à nova geração de auto-intitulados sambistas ou pagodeiros que vêm apedrejando o samba com seus batuques eletrônicos. Ou seja, ‘‘Trajetória’’ é uma confirmação de que o acústico ainda é a forma mais viável e coerente de tratar um gênero que Elza, por alguns anos, deixou um pouco de lado para mostrar que poderia se tornar uma espécie de brazilian jazz singer.
Rota corrigida, Elza retorna à brasilidade de forma nobre e elegante. Tudo em ‘‘Trajetória’’ soa bem seja pelo estofo sonoro ou mesmo pelo repertório que contempla várias gerações de compositores. Porém, é impossível falar do trabalho sem falar na voz de Elza Soares que está mais contida porém não menos charmosa e marcante. Digamos que, desta vez, a voz da cantora está mais a serviço das palavras e da emoção do que propriamente do malabarismo vocal.
Não pensem, entretanto, que Elza está técnica. Nada disso. Ela está emocionante, dilacerante, comovente e, acima de tudo, segura quando se trata de brincar com compassos. Logo de cara, a categoria inigualável da intérprete parece de maneira esplendorosa na belíssima ‘‘Rio de Janeiro’’ (Guinga e Aldir Blanc), a melhor faixa do disco.
Já a sambista - no sentido lato - arrasa mesmo no partido alto ‘‘Sinhá Mandaçaia’’ (Almir Guineto e Luverci) que conta com participação de Zeca Pagodinho, não mais brilhante por falta de espaço - novamente por ‘‘culpa’’ da interpretação de Elza Soares.
O personalismo vocal é tamanho que chega a ser covardia a maneira como Elza recria clássicos como ‘‘Bom Dia’’ (Herivelto Martins), ‘‘Chuvas de Verão’’ (Fernando Lobo) e ‘‘Boato’’ (João Roberto Kely, aliás um dos seus primeiros sucessos). É comoção pura. É emoção à flor da pele. O disco, obviamente, não poderia terminar sem eriçar os pêlos dos braços.
A versão piano e voz de ‘‘O Meu Guri’’ (Chico Buarque) é simplesmente estonteante. Elza imprime tamanha emoção que fica decretado que, a partir de agora, ninguém poderá ousar regravar essa canção. ‘‘Trajetória’’, seu sinônimo é arrepio. (A.M.J.)

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