Um disco atrás, Rita Lee homenageou todas as mulheres do mundo. Agora, retroage e une todas numa só, Santa Rita de Sampa - ela própria. E a clave em que o faz é a do mais radical rock’n’roll. Não é para menos. Rita Lee é - sempre foi - a grande roqueira brasileira, sucessora de Celly Campello e Wanderléa que tomou umas pitadas de Nara Leão e Gal e virou metralhadora de talento. A auto-homenagem é, pois, mais do que justa - se todo mundo anda meio surdo, ela que se encha de louvores por si só.
Bem, ela o faz pela velha via de trocadilhos infames. Equipara-se a Camille Paspaglia, Joana Dark e que tais, e por aí a coisa vai. Acontece que, em especial no que diz respeito à roupagem roqueira, Rita está mais séria do que nunca. Seu rock hoje é compenetrado, ortodoxo à Stones - nos 90, sinônimo de establishment. Rita já não se desfolha irreverente, transgressora como sempre foi.
‘‘Ando Jururu’’, levada como heavy metal raivosinho assaltado pelos chatos Raimundos, espelha a retração da impagável Rita de 1974, hippie, grávida, maconheira e extremamente feminina/feminista. Ela talvez já não seja uma roqueira _a simpatia da bossa ‘‘Tum Tum’’, das toadas ‘‘O Que Você Quer’’ e ‘‘Longe Daqui, Aqui Mesmo’’ (aparentada de ‘‘Ambição’’, de 1977) e da doce releitura de ‘‘Menino de Braçan㒒 comprovam.
O mesmo faz a estrambótica ‘‘Jardim de Allah’’, pop vagabundo tipo ‘‘Iê Iê I꒒ (1985) da maior qualidade. É um achado, a volta da Rita escondida desde ‘‘Noviças do Vício’’, com trocadilhos e tudo. Pontos de fuga do rock’n’roll, são ilhas de inteligência na perda de prumo de que Rita padece desde meados dos anos 80. Mas a sensatez está toda aí: é nesses segmentos que Rita, confessional, revela que anda farta do rock’n’roll.
O que se avizinha, então, é a chegada - e ‘‘Bossa’n’Roll’’ (1991) já
caminhava nessa direção - de uma outra grande cantora de MPB (ou pop, no mínimo) ao cenário. Mesmo aí, fazem-se perfeitamente dispensáveis o pedido de bênção a Caetano (‘‘Homem-Vinho’’) e a citação indireta a ‘‘Sampa’’ (‘‘Fruta Madura’’). Rita Lee é, em 1997, um talento a ser explorado e descoberto, e não é qualquer cinquentona que alcança tal prodígio. Peça de transição, ‘‘Santa Rita de Sampa’’ oferece pouco, mas o que oferece são belas promessas. Saúde, Rita! (P.A.S.)

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