UM DIRETOR NA PLATÉIA
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de maio de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Aos poucos, a vida e obra de Heitor Villa-Lobos vão ganhando as telas dos cinemas, com as sucessivas estréias pelas capitais do País do filme Villa-Lobos Uma Vida de Paixão. O diretor Zelito Viana, ao lado do filho Marcos Palmeira, estará em Curitiba hoje para prestigiar a pré-estréia às 21h30, na Sala 1 do Estação Plaza Show.
Antes, porém, às 11 horas da manhã, no Solar do Rosário (Rua Duque de Caxias, 4), o galã da TV Globo e o pai participam de uma sessão de autógrafos do livro Villa-Lobos Uma Vida de Paixão, que Zelito Viana escreveu a quatro mãos com Joaquim Assis. A obra, publicada pela Editora Revan, é um relato biográfico solto, que em alguns momentos se mescla com ficção, mas que se assenta em profunda e longa pesquisa, segundo os editores. Fotos de cenas do filme, em cores e em preto-e-branco, foram incorporadas ao texto.
Villa-Lobos vinha sendo acalentado há 15 anos pelo diretor, que nunca conseguia juntar o dinheiro necessário para rodar o filme a produção ficou em R$ 6 milhões. Foram quase duas décadas de frustrações, mas que no resultado final soaram como um tempo benigno. Ficou melhor que 15 anos atrás, considera. Houve depuração do projeto, os equipamentos utilizados são de ponta, a própria maturidade de Zelito, hoje, deu um novo olhar à cena.
O público, que tem comparecido aos cinemas em São Paulo e Rio, está amando o filme. A aceitação se dá sem reservas: As pessoas riem nos momentos divertidos, choram nas situações mais delicadas.
O compositor brasileiro de maior projeção internacional apesar de ainda hoje na Europa ter gente julgando-o espanhol pelo sobrenome Villa teve uma vida rica, exuberante e profundamente ligada às seivas brasileiras. Na obra de Zelito Viana ele prepara-se para um concerto de gala no Teatro Municipal, onde será homenageado. É a última vez que deixa sua casa, acompanhado de Mindinha, sua mulher.
Monta-se, lentamente, numa cronologia de 60 anos, a imagem do artista: um homem ao mesmo tempo enérgico e frágil, simples e megalômano, amoroso e egocêntrico, genial e ingênuo. Três atores vivem o autor das Bachianas em momentos distintos de sua vida André Ricardo (menino), Marcos Palmeira (jovem) e Antonio Fagundes (maturidade).
O roteiro cobre, exatamente, 63 anos da vida do homem nascido no bairro carioca de Laranjeiras começa quando ele está com nove anos de idade, e prossegue até sua morte, aos 72 anos, em 1959. Um câncer sugou-lhe toda a energia. Zelito Viana, porém, não queria somente retratar um personagem, mas viajar pelo cérebro de um criador. A proposta vai além: Filmar a vida de Villa-Lobos não é apenas falar ao grande público sobre um dos gênios da história da música. Sua trajetória também pode nos ajudar na difícil tarefa de reconciliação do Brasil com seu povo identificando suas potencialidades, reconhecendo sua força, sua beleza, sua originalidade, sua tradição, analisa.
Villa-Lobos chegou às telas na mesma época em que se comemoravam os 500 anos do Descobrimento. Coincidência, uma questão do acaso como explica Zelito Viana, zeloso com seu trabalho. Meu filme não foi feito para os 500 anos. Aconteceu, explica. Porém, as descobertas são intrínsecas ao desenrolar das cenas: As pessoas descobrem nele a brasilidade, o amor pelo País, afirma.
Zelito Viana cuida de Villa-Lobos Uma Vida de Paixão como um filho que necessita de todo seu apoio. Está ainda muito recente, não fortaleceu as pernas. O cuidado é pleno. Não consigo pensar noutro filme enquanto não terminar todas as fases que este necessita. Portanto, novos projetos só começarão a ser averiguados daqui a alguns meses.


