Um Dia Um Gato
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de julho de 1998
Lélio Sotto Maior Jr. 
Um máximo de encantamento, imagens e sons num incessante fluxo encantatório, formas-cores-movimentos em instigante luscofuscar, um arco-íris intermitente de briquebraques, tudo isso sobre a égide de uma fábula onde a enorme afinidade entre a imaginação da criança e a imaginação do artista formulam didaticamente a abertura para uma fruição mágica (anti-analítica) do mundo, é o que nos propõe este inteligente divertissement construído sob o paradigma da alegria de inventar.
São nítidas portanto as influências da Nouvelle-Vague: a espontaneidade e o comportamento quase improvisado das crianças lembra o frescor e a aisance de Les-Quatre-Cents Coups (Os Incompreendidos) de François Truffau; em vez daquele critério convencional que baseava-se num controle marcado à ferro do mínimo gesto da criança a fim de moldá-la a um comportamento determinado, temos aqui a vertente oposta (e inaugurada pelo gênio de Jean Vigo em Zero de Conduite): o deixar a vontade a fim de extrair um máximo de naturalidade, sendo que até mesmo os erros de dicção e as imprecisões de entonações da interpretação da criança são tomadas como preciosos e privilegiados momentos de revelação: é a direção-de-atores-características do cinema-verité.
Há por outro lado aquele halo de diafanidade que caracteriza o estilo de outro importante nouvelle-vaguista: Jacques Dêmy (Lola, Os Guarda-Chuva do Amor, La Baie des Anges) além de uma influência nítida (ainda que integrada a um outro tipo de temperamento) do musical da Metro, em especial do mood de Funny Face (Cinderela em Paris) de Stanley Donen: a sequência final, Audrey Hepburn dançando sob a luz dourada do lago onde deslizam lentamente cisnes brancos...
Mas por detrás desta paraphernalia de invenção pura (que acusa um pendant todo especial para o rebuscamento e para o fantaísiste) se denuncia (infelizmente e como sempre) uma Weltanshaung, e no caso de uma visão do mundo piegas por querer enquadrar o comportamento humano em dois ou três arquétipos dum maniqueísmo risível, coisa um tanto esquisita vinda da parte de um cineasta tcheco e que, portanto, já deveria ter pelo menos ouvido falar em dialética.
Não resta dúvida que o crítico deve ter o mínimo de inocência de não tomar por ética o que não passa de uma gag, mas é também uma idéia logo não descomprometida de uma significação moral. De qualquer forma, o filme é uma leveza, dum encanto, dum appeal aos quais nem o mais sisudo dos Kulturkritiks é capaz de ficar indiferente.


