Um dia só para mim (Cá prá nós - Elisiê Peixoto)
Cá prá nós Elisiê PeixotoUm dia só para mim
Estamos sempre
fazendo alguma
coisa por alguém
Durante a semana, uma gripe me carregou para a cama dois dias seguidos. Coisa rara, já que dificilmente entrego os pontos em qualquer situação que seja. Mas a danada judiou o que pode e me fez voltar para casa várias vezes, quando cismava que havia melhorado. E já que não havia remédio que desse conta da dita cuja, remediado estava.
Ficar na cama o dia inteiro, nem pensar. Então resolvi colocar o armário em ordem, atualizar os álbuns de fotografias, escutar alguns CDs antigos e ler. Coincidência ou não, um dia antes de a gripe bater à porta, ganhei um livro de crônicas de Mário Prata, dado por minha amiga Patrícia. E foi ótimo, porque em outras circunstâncias dificilmente iria me sentar para ler calmamente. O livro veio em boa hora.
E foi justamente neste dois dias de molho que refleti sobre algo que não faço há tempos: dar um tempo para mim. Isso mesmo, dedicar algumas horas a mim mesma.
No corre-corre do dia-a-dia somos as últimas pessoas com as quais nos importamos. Estamos sempre fazendo alguma coisa por alguém. Um dia é para filhos, no outro pelo marido ou namorado, no outro ainda pelos amigos e pelo patrão. Por nós mesmos, quase nunca. Tempo acaba sempre faltando.
Nestes dois dias de descanso e de reflexão forçados cheguei a me sentir culpada por não acompanhar meu filho na escola ou de faltar a um aniversário de uma colega de trabalho. Acostumada a não mancar com as pessoas com as quais agendo, os tais furos quase me tiraram o sono. Pura bobagem. Ninguém morreu, o pai buscou o filho e minha colega se contentou com um telefonema carinhoso.
Não sei se isso acontece com a maioria das pessoas, mas, pelo menos eu tenho o péssimo defeito de fazer, me desdobrar e depois me cobrar e cobrar as outras pessoas. Estou sempre tentando dar conta daquilo que me é solicitado, e acabo empurrando com a barriga os compromissos que eu teria comigo mesma.
Sou capaz de comprar um CD e ficar dias com ele na bolsa sem ter tempo para ouvi-lo. O pára-brisa traseiro do meu carro despencou e eu não arrumo tempo para consertá-lo. Entrar numa loja e escolher tranquilamente uma roupa é algo que não faço há séculos. Tenho que voltar para a revisão médica e não consigo uma horinha disponível. Tirar um final de semana só para mim é utopia. E para tratar do visual no cabeleireiro, é sempre correndo e por conta de 15 minutinhos na hora do almoço.
Então, é claro que ficar dois dias amuada em casa não foi uma tarefa muito fácil. Na verdade foi um sacrifício danado, mas resultou nesta crônica e isto é sinal de que preciso mudar algo na minha vida. Não sou obrigada - e ninguém é - a dar conta de tudo e de todos. O dia tem 24 horas para qualquer pessoa deste planeta. E o que for possível deixar para o dia seguinte deve ser analisado e esquecido temporariamente.
A ansiedade de resolver tudo e de fazer qualquer coisa que estiver ao seu alcance acaba gerando mais ansiedade e stress. Mulher tem mania de resolver - ou pelo menos de escutar - os problemas do marido, do namorado, dos filhos, da empregada, da vizinha, da amiga. Somos um bom ombro. Mas na hora em que a coisa ferve para o nosso lado, resolvemos sozinhas. Bem-feito para nós, acostumadas a assumir o papel de profissinais, esposas, mães e donas-de-casa, e de lutarmos tanto pela igualdade dos sexos.
É claro que existem pessoas que chegam a irritar pela tranquilidade e calma. Querem mais é que o mundo acabe em barranco para morrer encostadas. Gente assim não se desdobra por nada, leva a vida na flauta, valoriza a saúde, está sempre com a aparência boa, bem-arrumada e se cuida, como se cuida. E vive 100 anos.
Em meio a tanta correria, a maioria das pessoas acaba só reclamando e não dá atenção aos pequenos prazeres da vida. E o que é pior, acaba dramatizando qualquer situação, por mais simples que ela seja.
Gente como eu, sempre em estado de alerta, procurando solução imediata para tudo, deveria anotar na própria agenda: Um dia só para mim. Que chova canivete aberto, mas chega a hora de se permitir ser feliz.
Como por exemplo comer uma caixa de chocolates sozinha, ler um livro num fim de semana, despachar os filhos para a casa dos avós ou pegar um cineminha em plena segundona brava.
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