Brasil, final dos anos 60. O dramaturgo Plínio Marcos expõe em sua obra as relações humanas em toda sua crueza, através de personagens que percorrem uma trajetória da mais abjeta degradação física e moral. O momento é de repressão. O País tem medo de encarar a realidade dos marginalizados e proíbe seus artistas de revelá-la ao mundo. Plínio Marcos é a liberdade de expressão – e que não quer calar, quer falar da opressão.
Ano 2001. Nada mudou. A dura situação dos desvalidos continua sendo desagradável aos olhos e, por isso, incomoda. E provoca a censura econômica, política, social... A situação não parou nos anos 70, nem as idéias de Plínio Marcos se foram com ele em 1999. Os retratos estampados pelo dramaturgo continuam atuais. Foi isso que motivou o diretor Sérgio Ferrara, de São Paulo, a resgatar a obra de Plínio Marcos e trazer ao palco do 10º Festival de Teatro de Curitiba o espetáculo ‘‘O Abajur Lilás’’, cuja estréia nacional acontece hoje, às 21h30, no Teatro da Reitoria.
Escrito em 1969, o texto toca o que há de mais profundo no ser humano – a compaixão – através da desgraça de personagens que não estão ligados simplesmente àquele momento político do País. ‘‘O Abajur Lilás’’ fala de pessoas que vivem uma situação limite da sua resistência, entre a tortura e a morte, num mundo onde objetos valem mais que a vida. O texto retrata a história de Dilma, Célia e Leninha, que vivem em um mocó sob o domínio de Giro, um cafetão homossexual, e de Osvaldo, um homem que faz da violência o motivo maior de sua existência.
‘‘Abajur Lilás é Plínio Marcos na veia’’, diz Sérgio Ferrara. ‘‘Ele é essencial, visionário do ponto de vista cultural, social e político e, por isso, tem que ser montado’’. Plínio Marcos (1935-1999) é um dos maiores nomes do teatro brasileiro, autor de mais de 20 peças. Teve várias delas censuradas, inclusive ‘‘O Abajur Lilás’’, com uma única montagem nos anos 70. A peça só foi liberada depois dos anos 80 e, mesmo assim, foi pouco montada.
Sérgio Ferrara faz questão de frisar que o dramaturgo santista não tem nada de datado em sua obra. ‘‘Temos que parar de situar certas obras em momentos históricos. O País passou por transformações; nós temos uma outra visão do que foi a ditadura e, ainda assim, nos matamos constantemente da forma em que vivemos nesse País. A única coisa que a gente tem é esperança – e ela pode ser tirada’’, comenta. ‘‘Temos que resgatar isso para que as pessoas não se sintam mortas’’.
O elenco de ‘‘O Abajur Lilás’’ é encabeçado por dois experientes atores, Ester Góes e Francarlos Reis, que já trabalharam juntos nos anos 70 em ‘‘Hair’’. Trinta anos depois, estão no mesmo palco para um embate entre opressor e oprimido. Juntam-se a eles no palco, as atrizes Magali Biff (Célia), Lavínia Pannunzio (Leninha) e o jovem Elder Fraga, que está em sua segunda montagem com Sérgio Ferrara e interpreta o violento Osvaldo.
Ester Góes é a prostituta Dilma, personagem que pode ser considerada um símbolo do povo sofrido e que, apesar de tudo, vislumbra possibilidades de mudanças. ‘‘O limite da Dilma é além da linha. Ela está quase do outro lado. O Brasil vive exatamente isso. Nós todos estamos compartilhando essa miséria, essa precariedade que cresce sem controle a cada dia. Ao mesmo tempo, estamos mais do que nunca mentindo para nós mesmos’’, alinhava. Ester Góes fala da decepção pela miséria, frustração e falta de dimensão humana. ‘‘É esse testemunho que quero dar em Abajur Lilás’’, antecipa.
A peça trata de pessoas no limite da morte, o que para Ester exige disponibilidade humana do ator a se transportar para esse universo. ‘‘É preciso disponibilidade do artista e do ser humano’’, diz. ‘‘Estou numa fase da minha carreira em que não tenho mais tempo de fazer coisas nas quais não posso estar inteira. E Plínio concede isso ao ator’’, afirma.
A atriz Magali Biff, que considera a montagem um grande desafio, diz nunca ter feito nada tão realista no teatro. ‘‘É difícil falar de uma coisa que eu não vivo e que, ao mesmo tempo, está acontecendo na esquina’’, afirma. No entanto, uma leitura mais abrangente da situação do País leva a atriz a repensar: ‘‘Na verdade, o problema não está na esquina, está em cada um de nós’’, conclui.
‘‘O Abajur Lilás’’, espetáculo estréia hoje, às 21h30, com reapresentação amanhã, às 20 horas no Teatro da reitoria. Com Ester Góes, Francarlos Reis, Magali Biff, Lavínia Pannunzio e Elder Fraga (SP). Direção: Sérgio Ferrara. Assistência de direção: Maria Lúcia Pereira. Cenografia: J.C. Serroni e Laura Carone. Figurino: Elena Toscano. Iluminação: Vilela e Sueli Matsuzaki. Sonoplastia: Sérgio Ferrara.

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