Parecia mentira, mas Bjorn Dunkerbeck, 26 anos, o melhor windsurfista da atualidade - que venceu nove vezes consecutivas o campeonato mundial - estava no Brasil para dar algumas aulas e, é claro, velejar. E o que é melhor, a convite do patrocinador, a loja de equipamentos e acessórios Hi-Winds - representante no Brasil da Neilpryde, pude acompanhar de perto sua visita a São Paulo e Ilhabela, em dezembro. Dunkerbeck é filho de dinamarqueses, nasceu na Holanda, mas é naturalizado espanhol e mora nas Ilhas Canárias. ‘‘Lá é um lugar perfeito para mim, há vento o ano inteiro’’, diz.
A agenda foi tentadora, Dunkerbeck compareceu a festas, deu workshops e velejou nas Ponta das Canas (Ilhabela) durante a penúltima etapa do Campeonato Brasileiro. Como ele só teve um dia e meio para cumprir esta apertada agenda, fomos e voltamos de helicóptero a Ilhabela, costeando o Litoral Norte paulista.
Tanto em São Paulo como na Ilhabela, Bjorn compareceu a coquetéis na loja do patrocinador, a festas e deu palestras, onde respondeu a todas as perguntas de seus fãs com muito carinho. O comentário era geral, apesar de seu apelido ser ‘‘Terminator’’, este loiro de olhos azuis, pele bronzeada, 1,91m e 95 quilos é muito amável e tem uma paciência infinita. Depois do coquetel em São Paulo, aconteceu uma festa disputadíssima, cheia de mulheres bonitas e velejadores, na casa noturna B.A.S.E., da qual Bjorn saiu às 7 da manhã. Às 10 horas já estava pronto para a viagem de helicóptero.
Na Ilhabela, o tempo estava instável, não tinha vento, e o que é pior, os borrachudos estavam famintos. Por isso, o campeão resolveu matar o tempo esquiando, longe dos mosquitos. Depois, como todos os presentes queriam vê-lo velejando, arrumou pacientemente um equipamento emprestado, o qual definiu como de ‘‘antes da guerra’’.
Assim, o Campeonato Brasileiro de Windsurfe, etapa Ilhabela, contou com a presença do campeão Bjorn, que participou descompromissadamente de uma das regatas, onde deu uma pequema amostra de seu talento impressionante. ‘‘Ele tem total domínio de todo equipamento e mostrou muita paciência em explicar várias técnicas e esclarecer todas as dúvidas dos velejadores participantes’’, analisou o presidente da Associação brasileira de Windsurfe, Ivan Floater. ‘‘Ele arrumou minha vela e a deixou perfeita, dá vontade de nunca mais desmontá-la’’, conta o velejador brasileiro Roger Blaha. Em meio a tantas atividades, Bjorn Dunkerbeck deu a seguinte entrevista:
Na história do windsurfe nunca um velejador ganhou tantas vezes seguidas, qual o seu segredo?
Bjorn Dunkerbeck - É simples, o segredo é resultado de três coisas: silêncio, dedicação e tempo. Silêncio para se concentrar, dedicação ao esporte e arrumar tempo para treinar.
Como é seu dia-a-dia?
Bjorn Dunkerbeck - Acordo e vou praticar na praia. Moro nas Ilhas Canárias (Espanha) e lá só não venta cinco dias por ano. Quando não estou lá, estou participando do Campeonato Mundial que começa em fevereiro e termina em julho. Também viajo muito a procura dos melhores locais para velejar, tanto em ondas como em velocidade.
Por que você aceitou vir ao Brasil?
Bjorn Dunkerbeck - Porque é incrível que um País como o Brasil, com tantas praias e um potencial enorme para o desenvolvimento do windsurfe, tenha tão poucos adeptos. Nesse Campeonato Brasileiro, no qual estivemos hoje, havia apenas umas 40 pessoas participando. Para você ter uma idéia, só nas Ilhas Canárias há 250 velejadores. Vim pra cá para divulgar o windsurfe que, pra mim, é muito mais que um esporte, é um estilo de vida. São alguns dias que irei perder de treino, mas compensa. Acho que muitas pessoas que me viram e conversaram comigo ficaram com vontade de começar a fazer windsurfe. Eu amo o windsurfe e vim pra cá por causa disso. E tenho certeza que num País como este podem surgir até dez vezes mais esportistas, e porque não dizer futuros campeões.
Mas o equipamento do windsurfe é um pouco caro..
Bjorn Dunkerbeck - Não é não, com mil dólares dá pra comprar um equipamento legal. Mas não é só isso. No windsurfe, você faz muitos amigos, que são muito verdadeiros, como é o caso do Daniel (campeão espanhol em todas as categorias) que veio aqui comigo. No começo, alguém precisa lhe ensinar o básico, ou você pode entrar numa escola, que eles fornecem o equipamento. Depois, vá juntando dinheiro para comprar o seu. O valor é muito baixo comparado com o prazer que ele vai lhe dar. Você vai fazer bons amigos no esporte, amigos para toda a vida. Tenho certeza que o windsurfe vai mudar a sua vida.
Quando você voltará ao Brasil?
Bjorn Dunkerbeck - Não tenho a menor idéia, mas gostaria muito de voltar o mais rápido possível.
Você acredita em astrologia?
Bjorn Dunkerbeck - Nasci dia 16 de julho de 1970, sou de câncer, mas acho esse negócio de signos uma grande bobagem. Acredito na garra e no esforço, em você fazer o que gosta, acreditar e lutar por isso. Você faz seu destino, mas não é fácil tem de lutar por ele.
Se você pudesse escolher uma época para nascer, qual escolheria?
Bjorn Dunkerbeck - Nasceria há 2.200 a.c., queria ser um viking e viajar pelos oceanos.
Por que um viking?
Bjorn Dunkerbeck - Porque foram eles os primeiros a descobrir a América.
Além do windsurfe, o que mais você gosta de fazer?
Bjorn Dunkerbeck - Como todo espanhol adoro festas, música, principalmente as que têm letras interessantes, e sexo.
Você é muito assediado?
Bjorn Dunkerbeck - Muito, em cada festa que vou tem no mínimo umas seis mulheres interessadas em mim, posso sair com a que quiser, só que não estou nem aí pra isso, não. Na verdade, eu gosto mesmo é de me divertir nas festas com os meus amigos e o assédio da mulherada é uma consequência natural. Eu sei que sou bonito, mas, pra mim isso não quer dizer nada, não tem valor nenhum.
Onde é o melhor lugar para se praticar o windsurfe?
Bjorn Dunkerbeck - Na praia de Hana Manu, na ilha de Maui, no Havaí. Lá eu esqueço da vida. Aliás, lá tem um posto de gasolina, três casas e só. É perfeito. Fico na água o dia inteiro.
O que diferencia um campeão de um perdedor?
Bjorn Dunkerbeck - Um campeão faz tudo com muito amor e prazer, mas acima de tudo presta muita atenção a todos os detalhes para que nada dê errado, para que nada fuja de seu controle. Os detalhes são muito importantes. Mas também para vencer você precisa viver a vida com emoção, uma vida sem emoção não vale a pena.
O que você achou da regata do Campeonato Brasileiro?
Bjorn Dunkerbeck - Um pouco desorganizada, nunca ví bóias tão longe uma das outras em toda minha vida. O trajeto pode e deve ser melhorado, além disso havia muitos competidores sem numeral nas velas, nunca ví isso. Mas mesmo assim, observei alguns velejadores que se treinarem forte e começarem a dar atenção aos detalhes, podem competir nos campeonatos internacionais, e quem sabe até vencer.

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