Um destilador de palavras
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de setembro de 2001
Nelson Sato <br> De Londrina 
Uma década de produção poética, divulgada em modestas brochuras para amigos, recebe enfim uma lombada. ''Entre a Palavra e o Silêncio'' é o primeiro livro de poesia de Carlos Ribeiro, que faz o lançamento hoje às 20 horas na Biblioteca Pública de Londrina como parte das comemorações do cinquentenário da instituição.
O livro, chancelado pela editora local Atrito Art, reúne inéditos e poemas garimpados de várias plaquetas caseiras feitas em tiragem limitada pelo autor ao longo dos últimos dez anos. O próprio título foi emprestado de uma das publicações. ''Procurei dar uma unidade a essa coletânea, de tal maneira que não resultasse numa mera sequência de textos atirados a esmo'' explica o poeta nascido em Centenário do Sul e radicado em Londrina desde 1967.
Ribeiro está presente no volume ''12 Antologia dos Poetas Londrinenses'', lançado há dois anos pela Atrito Art como uma tentativa de mapear os nomes mais representativos da cidade. Ele é também um estudioso de Filosofia, disciplina a que dedicou o livro de ensaio ''Método sem Método'', publicado pela editora da UEL.
A incursão pela poesia conta ele sempre foi impulsionada pelo desafio de imprimir uma dicção original a um gênero literário em que tudo aparentemente já foi experimentado. ''É um exercício difícil, uma proeza. A impressão é de andar numa corda-bamba do verbo'' diz. O livro é resultado de suas preocupações e ambições.
''É um verdadeiro microcosmo de ressonâncias existenciais, metafísicas e simbólicas em que cada seção, cada poema, resume um viés, uma visão, uma voz, uma viagem'' define. Nas páginas, o leque estilístico abrange de prosa poética a hai kais enveredando por registros variados que vão do onirismo surrealista ao tom jocoso e francamente autobiográfico.
Ao falar de influências, expressão que prefere substituir por confluências, Ribeiro lembra o impacto que os simbolistas franceses (Mallarmé e Baudelaire em particular) exerceram sobre seus primeiros versos. Menciona também as obras dos brasileiros Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Manoel de Barros, Paulo Leminski e Mário Quintana.
A poesia concreta é citada como exemplo de rigor. O caldo de referências inclui ainda o realismo fantástico, a ficção científica e a literatura esotérica. Sobre a poesia contemporânea verde-amarela recente, Ribeiro afirma não ter condições de avaliações precisas. ''A poesia dos anos 90 é uma incógnita. Ela não circulou no mercado editorial, não foi divulgada. De qualquer forma, é cedo para ter uma visão mais ampla dessa produção''.
Apesar da cautela, ele não poupa críticas a uma certa vertente conservadora capitaneada pelo poeta Bruno Tolentino, que teria restaurado as formas fixas em plena virada do milênio. ''Toda poesia de qualidade exige uma depuração clássica, mas os neo-parnasianos estão trazendo os sonetos e as odes à moda antiga de volta apoiados numa retórica arcaica e medievalesca. O pior é que conseguem repercussão na mídia'' fulmina.
Ao final do volume, Carlos Ribeiro incluiu breves comentários de poetas e professores de literatura sobre sua obra. Entre os mais ilustres, há palavras elogiosas de Augusto de Campos, Manoel de Barros e Sérgio Rubens Sosséla.


