A história de um homem pode caminhar paralela à história de um país. Cada lado seguindo seu trajeto, entre dias de sol e noites de chuva. Uma hora ou outra, pelas garras do destino, as duas histórias podem se chocar rompendo o caminho paralelo. O impacto de um choque desse tipo é capaz de provocar, em ambos os lados, estragos e transformações.
Se alguém assumisse a iniciativa de assistir a esse choque com uma certa distância poética, teria a oportunidade de chegar a uma percepção mais sutil dos fatos. As consequências do impacto, por exemplo, seriam muito mais marcantes e doloridas para a história do homem do que para a história de seu país.
Em seu novo romance, ''Uma Estrela Chamada Henry'', o escritor irlandês Roddy Doyle segue justamente nessa direção. Apresenta a inversão do senso comum de que normalmente os homens morrem e a pátrias permanecem. Numa pátria pautada pela morte, as coisas são diferentes. Um país banhado de mortes é mais moribundo do que as pessoas que o habitam. Assim, a nação passa e as pessoas ficam.
Em ''Uma Estrela Chamada Henry'', Roddy Doyle narra a história de Henry Smart, um homem que não teve infância nem juventude. Aos seis anos saiu de casa para viver na ruas. Aos quatorze já era um guerrilheiro com um fuzil nas mãos lutando pela liberdade da Irlanda do colonialismo inglês. Amadurecido pela pobreza e pela violência, assume a imagem do herói em busca de liberdade, tanto individual como coletiva.
Embora tenha componentes que o classifiquem como um romance histórico, ''Uma Estrela Para Henry'' foge claramente a essa categoria. Retratando a caótica situação social e política da Irlanda no início do século 20, faz um desenho sutil das nebulosas entranhas do poder político. Com os instrumentos da literatura abre o ventre do poder e mostra suas tripas coisas que podem ser encontradas em qualquer parte do mundo, seja na Irlanda do passado ou no Brasil do presente.
O próprio Roddy Doyle, um irlandês de 44 anos, faz questão de afirmar que não deseja que sua obra seja lida como um romance histórico. Isso porque deixou muitos fatos reais de lado e acabou inventando outros tantos. Para ele a Irlanda é um país que nasceu da violência e algumas farsas que a história oficial prega em nome de uma de sociedade pautada pelo bem comum devem ser desmascaradas.
''Uma Estrela Para Henry'', que chega às livrarias brasileiras na próxima semana lançado pela Editora Estação Liberdade, é o primeiro livro em que o escritor se aventura pelo universo da violência de seu país. Apesar de suas outras obras, como ''Paddy Clarke Ha Ha Ha'' e ''O Furgão'', serem ambientadas em solo irlandês elas estão mais centradas nas relações humanas. Seus maiores personagens são sempre masculinos, homens e meninos de subúrbios.
A figura de Henry Smart, o grande herói de ''Uma Estrela Para Henry'', é emblemática e sedutora. Filho de um segurança de uma casa de prostituição com uma jovem sonhadora, nasceu na parte mais miserável de Dublin no esgoto como prefere dizer. Além de leão-de-chácara, o pai é um matador profissional que cumpre ordens sem saber de onde elas surgem ou se as vítimas merecem morrer. Com sua perna postiça, racha os crânios e joga os corpos nos rios da cidade.
Abandonada pelo marido, a mãe de Henry procura criar os filhos em situações amargas, numa miséria mais que absoluta. A sorte de Henry, o único sobrevivente de uma dúzia de filhos, é ter nascido mais forte que os irmãos. Com cinco anos passa a se virar sozinho, morando nas ruas pedindo esmolas, fazendo pequenos furtos e trabalhos esporádicos. Com pouco mais de dez anos já é uma homem feito, combatendo numa barricada contra o exército britânico. Não conhece o medo da morte. Um dos únicos a conseguir fugir das balas inglesas após o combate, passa a viver na clandestinidade como uma espécie de herói popular. Logo em seguida torna-se um soldado republicado do IRA. Sua especialidade é executar policiais, agentes secretos e traidores. Percorre todo o território do país numa bicicleta roubada estourando miolos.
Em suas aventuras se apaixona pela mulher que tenta lhe ensinar a ler e escrever. Juntos, tornam-se o casal de guerrilheiros mais corajoso do país. Vivem um amor banhado de sexo e liberdade. As peripécias do casal segue em frente mesmo quando os revolucionários começam a ganhar poder político e amenizam seus atentados. Então, o casal rebelde começa a representar perigo ao novo poder político que começa a tornar-se oficial. Nesse contexto, devem ser eliminados.
O impressionante é que, nesse processo todo, o Herói Henry Smart, aos 20 anos de idade, troca a violência pela ternura. Como se realizasse o caminho contrário de sua existência, troca sua ansiedade adulta pela contemplação infantil. A narrativa de Roddy Doyle nessa direção é de uma elegância arrebatadora, onde a liberdade social não pode abarcar a liberdade individual.
Dessa maneira, para conquistar a liberdade plena, o herói precisa limpar seu dolorido passado. Bem como purificar o fantasma do pai. Nesse contexto, sua liberdade só será possível com a anulação de seu passado da existência anterior que conduziu-o ao próprio entendimento da situação em questão. Em outras palavras, ter liberdade é não ter passado. Pode parecer difícil admitir, mas a ficção de Roddy Doyle em ''Uma Estrela Para Henry'' faz mais sentido que a própria realidade.


q ''Uma Estrela Chamada Henry'', de Roddy Doyle, Editora Estação Liberdade, tradução de Lidia Luther, 384 páginas, R$ 34,00.

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