Após viajar quase dois mil quilômetros para chegar a Curitiba, a companhia baiana Teatro Por Um Fio encontrou outros desafios. ‘‘Temos que bancar as passagens, o transporte do cenário, a hospedagem, a alimentação e vários outros custos’’, afirma a diretora do espetáculo ‘‘Clarices’’, Nadja Turenko.
Ela, duas atrizes e dois técnicos vieram de Salvador por conta própria, sem nenhuma espécie de ajuda de custo ou patrocínio. A conta, segundo estima Nadja, ficará em torno de R$ 5 mil.
Apesar de ter lotado a platéia de 90 lugares do Teatro Cultura (Largo da Ordem) na estréia, segunda-feira, a diretora não tem nenhuma esperança de que a renda das apresentações cubra todas as despesas.
O prejuízo financeiro, entretanto, se pagaria pelo ‘‘efeito vitrine’’ do festival, pela possibilidade de troca de informações com grupos de todo o Brasil e pelas muitas estréias nacionais que acontecem simultaneamente na cidade. ‘‘Encaro a nossa vinda como um grande investimento’’, declara Nadja.
Prova disso é que esta é a segunda participação da companhia no festival. A estréia foi no ano passado com o espetáculo ‘‘Francisco’’. Bem humorada, Nadja avisa que apesar de valer a pena participar do Fringe, ela espera ser convidada na edição do ano que vem a integrar a Mostra Oficial ‘‘Acho que já dei minha cota de sacrifício nestes dois anos’’, brinca.
Em sua lista de sacrifícios está a falta de acomodações. Sem dinheiro para bancar sete dias de hotel para toda a companhia em Curitiba, a trupe está alojada de forma improvisada na casa de amigos, no bairro Bacacheri. ‘‘Além disso, fazemos o papel de office-boy da companhia, varremos, distribuímos panfletos e colamos cartazes por toda a cidade, o que nos deixa exaustos’’, conta.
Outra dificuldade encontrada pelo grupo é a divisão do mesmo palco com outras companhias. No Teatro Cultura, por exemplo, até cinco espetáculos se revezam no mesmo dia. ‘‘É uma verdadeira gincana para montar cenário e afinar luz e som em pouquíssimo tempo’’, diz Nadja.
Em sua avaliação, tal maratona se torna um peso grande demais para as companhias. ‘‘Já que estou vindo de tão longe, eu queria no mínimo encontrar uma infra-estrutura razoável para apresentar o meu espetáculo’’, declara.
Há três anos em cartaz, ‘‘Clarices’’ é uma adaptação de ‘‘Um Sopro de Vida’’, de Clarice Lispector. O drama lírico repleto de humor, poesia e jogos de palavras é encenado pelas atrizes Débora Moreira e Maria Marighella.

mockup