Tragédia premonitória, o assassinato ainda hoje impune do jovem Fernando Ramos da Silva há quase dez anos em Diadema, Grande São Paulo, mais precisamente em 25 de agosto de l987, é uma espécie de sinistro ponto de partida para a escalada nacional da violência contra menores, infratores ou não, durante a ultima década, e que culminaria com a chacina da Candelária. Em exibição no Ouro Verde, ‘‘Quem Matou Pixote ?’’, filme de José Joffily, narra a via crucis do personagem a partir dos 11 anos. Garoto-revelação no concurso (entre outros 1.300 candidatos) que escolheu o personagem-título do premiado ‘‘Pixote, a Lei do Mais Fraco’’, dirigido por Hector Babenco em l979/80, Fernando Ramos da Silva é apanhado no contra-pé de uma infância carente no ABC paulista e a súbita fama de uma inesperada carreira artística. Pobre, semi-analfabeto, despreparado e desorientado, Fernando é em seguida tragado pela triturante estrutura televisiva - sua participação na novela global ‘‘O Amor é Nosso’’ , ao lado de Tonia Carrero e Walmor Chagas, é um desastre, e sua participação no cinema pára depois de rápidas participações em ‘‘Eles Não Usam Black Tie’’(Leon Hirszman, 80/81) e ‘‘Gabriela, Cravo e Canela’’(Bruno Barreto, 1982). ‘‘Quem Matou Pixote ?’’ fica com o personagem a partir deste momento, do day after trágico na vida desse menino apaixonado por cinema e por James Dean.
Não faz muito sentido e nem tem muita utilidade prática dizer que o filme é o melhor da carreira de José Joffily, composta por cinco curtas e três longas. Importa é ressaltar que nesta safra recente de recuperação ‘‘Quem Matou Pixote ?’’ situa-se no mesmo nível de qualidade de ‘‘Terra Estrangeira’’, de Walter Salles, e muitos furos acima de ‘‘Carlota Joaquina’’, de Carla Camurati , ou de ‘‘O Quatrilho’’, de Fábio Barreto. É uma localização privilegiada. E a produção mereceu todos os sete prêmios obtidos em Gramado-96, inclusive o de melhor filme (júris oficial e popular), melhor roteiro e melhor ator e atriz.
A morte prenunciada A partir da rejeição pela comunidade artística, Fernando direciona sua existência para a via criminosa. Vira assaltante de carros, numa espécie de quadrilha em família - seus irmãos Paulo e Valdemar foram encontrados mortos a tiros, o primeiro no início de 87 e o outro em 90; um terceiro, Valdenir, e um quarto, Ronald, foram presos por assalto. Esta sua nova e não desejada profissão é que vai levá-lo à morte com oito balas disparadas à queima-roupa por três policiais. Processados e julgados, foram condenados a seis anos de prisão. Apelaram em liberdade, e em 1995 a pena foi reduzida para menos de dois anos. Com a nova decisão, a pena tornou-se prescrita e os assassinos ficaram livres da prisão.
Para Joffily e para o público a resposta à pergunta do título é transparente. O policial aperta o gatilho, mas a morte fica debitada à estrutura social injusta que sempre penaliza inocentes e desvalidos. Parece lugar comum para uso eventual. Não é. O filme tem uma sinceridade desconcertante na abordagem de uma morte que é mais ou menos prenunciada. A engrenagem - outro chavão, aqui atualizado - que incentiva e movimenta a delinquência de Fernando-Pixote é aquela mesma nossa velha conhecida, e que apareceu tão latino-americana nos filmes da mostra competitiva no mesmo Festival de Gramado que reconheceu e recompensou os méritos de ‘‘Quem Matou Pixote ?’’. Mas sem muito esforço pode-se também atribuir boa parte da responsabilidade pela execução de Fernando a uma certa atitude de quem prega a solução radical do extermínio , aqueles que confessam em família que ‘‘só matando’’...
Rito interrompido Em ‘‘Quem Matou Pixote ?’’ o único rito de passagem possível para o personagem é o de uma infância inocente para uma adolescência criminosa, e desta para a morte, sem direito a escala na vida adulta. Baseado nos livros ‘‘Pixote, a Lei do Mais Forte’’, do jornalista e escritor José Louzeiro, e ‘‘Pixote, Nunca Mais’’, de Cida Venâncio Silva, mulher de Fernando Ramos da Silva, o roteiro de Joffily e Paulo Halm focaliza com muita sensibilidade e emoção - às vezes com uma tendência over - esta existência-pesadelo dos que sonham, tentam e não conseguem num país socialmente polarizado como o Brasil. E esta polarização não é apenas social, mas na mesma medida cultural. Pois um dos crimes de Fernando foi ousar querer ser artista numa sociedade em que a produção e a fruição da arte e da cultura são monopólio de uma casta minoritária e elitista. Apesar do forte colorido nacional, a saga de Fernando poderia acontecer também na periferia pobre de qualquer grande cidade de qualquer país do mundo, em qualquer lugar onde as portas ficam fechadas para os que não têm.
Munido de uma estrutura dramática convencional mas extremamente eficiente, ‘‘Quem Matou Pixote ?’’ consegue ao mesmo tempo ser um clássico filme policial de fórmula, um ‘‘thriller’’ bem narrado, e uma denúncia de forte conotação social. O resultado final é um filme duro, muitas vezes cruel. Com uma tragédia que no fundo tem tudo a ver com o verdadeiro e perdido espírito de Natal.

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