O que acontece quando quatro lendas do palco e da tela britânica se reúnem, amigas que são há décadas, para tricotar toda uma vida de feitos e glórias, e muitas lembranças feitas de risos, lágrimas e melancolia? São quatro dames – título dado a poucas mulheres na Grã-Bretanha como especial honraria, geralmente por trabalhos inestimáveis e relevantes prestados ao longo do tempo: Maggie Smith, Judi Dench, Joan Plowright e Eileen Atkins são esse quarteto de ladies, quatro das atrizes mais célebres de sua época.

Por 84 minutos, elas estão diante das câmeras em “Chá com as Damas” (a partir desta quinta (16), no Cine Com-Tour/UEL), falando (e se auto interpretando, por que não?) sobre suas performances românticas e dramáticas, suas esperanças e seus Oscars, Tonys, Emmys e BAFTAS.

Dourando ainda mais a pílula: elas também são amigas de longa data e se reúnem de tempos em tempos, o que confere ainda mais sabor a este documentário realizado em 2018 pelo inglês Roger Michell (“Nothing Hill”), que colou sua câmera nelas para registrar suas confidências.

Elas viram e reviram seus baús de lembranças, profissionais e pessoais, recordando e compartilhando pensamentos cândidos e deliciosamente irreverentes praticamente sobre tudo, da arte ao amor e à uma vida vivida sob as luzes potentes da ribalta e dos sets. Recheado de perspicácia diabólica, finesse e sutileza, “Tea With The Dames” é oportunidade rara e notável para enriquecer o tempo (pena que seja hora e vinte somente) na companhia de quatro grandes de todos os tempos – bem de perto e sem filtros.

No filme, barato e eficiente à toda prova, Michell agrupa na casa histórica de Joan Plowright (uma pequena mansão campestre ao sul da Inglaterra, entre Brighton e Chichester) os quatro monstros sagrados que iniciaram suas respectivas carreiras há mais ou menos 50 anos. E deixa tudo rolar sem qualquer artifício. Além de amigas, elas são cúmplices, o que se nota em muitos momentos. A 'piece de resistence' da conversa não poderia ser outra: teatro e cinema, nesta ordem.

Elas se divertem muito – e contagiam o espectador. Falam de filmes, dos melhores momentos artísticos de cada uma, de seus maridos e filhos, e mais detidamente de Laurence Olivier, com quem (sob as ordens de, seria mais preciso e precioso) as quatro trabalharam no teatro – além de ter sido marido de Joan Plowright. Obviamente elas surfam em águas calmas da terceira idade, e enquanto tomam chá das cinco, discorrem com a inteligência, o sarcasmo e a ironia (às vezes implacável) de quem segue e seguirá na ativa até que Apolo, deus das artes, decida convocá-las para um outro palco.

Documentário traz um quarteto de atrizes - Maggie Smith, Judi Dench, Joan Plowright e Eileen Atkins - que estão entre as mais célebres de sua época
Documentário traz um quarteto de atrizes - Maggie Smith, Judi Dench, Joan Plowright e Eileen Atkins - que estão entre as mais célebres de sua época | Foto: Divulgação

Joan Plowright vai fazer 90 em outubro. Eileen Atkins, 85 em junho. Judi Dench e Maggie Smith em dezembro também chegam aos 84. As quatro falam com humor de seus achaques, como a perda da audição e da visão. “Entre as quatro, há três pares de olhos bons”, alguém brinca: Plowright está cega há tempos. Seja como for, não pensam em aposentadoria. “Seguiremos trabalhando se nos contratam”, afirmam. “Ainda que ofereçam antes os papéis a Jude”, observa Maggie Smith maliciosamente.

A propósito, estreia nesta quinta na cidade “A Espiã Vermelha”, com Jude Dench no papel de Joan, uma inglesa que trabalhou por mais de 50 anos como espiã para a KGB russa. Vale conferir, ela contra o M-16 da espionagem inglesa que chefiou em recentes 007.

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