Duas figuras exóticas se encontram todas as tardes para cultuar a memória de um morto, despetalando impressões de vivências afetivas com o falecido. A situação repetida a cada dia imprime fortes pinceladas de surrealismo. Esse encontro singular é o ponto de partida do espetáculo ‘‘O Defunto’’, apresentado pela Cia. F.U.M. de Teatro, escrito por René de Obaldia, que estréia hoje em Londrina.
Na proposta dramatúrgica, os personagens Fulano e Beltrano, em determinada hora do dia, se transformam em Julie e Madame Cavan, irmanadas na memória do falecido Vitor. A grande questão inserida pelos encenadores é onde começa o real e termina o imaginário. Fulano e Beltrano são andarilhos, surgem no início e no fim do espetáculo. Eles buscam uma brecha na realidade para falarem de seus fantasmas interiores, sem as amarras das convenções, e aparecem travestidos de Julie e Madame Cavan. Fulano e Beltrano criam um mundo particular ao se transformarem em figuras femininas.
‘‘O Defunto’’ é um texto atemporal, não há referências de tempo e local. O espetáculo traz a dupla Flávio Rex (Madame Cavan) e José Maria (Julie) se alternando entre personagens dependentes de um espectro. O falecido é idealizado como ser perfeito, um herói. Para as duas mulheres carentes, ele funciona como escudo e espada, confirmando um pacto esquizofrênico entre dois seres. Ele está sempre presente nos diálogos.
Se a história da peça transcende o real, a origem do texto não fica atrás. Os integrantes da Cia. não conseguiram localizar o autor, a nacionalidade, nem tampouco a época em que foi escrito o texto. Não sabem se René de Obaldia é um ser vivente ou não. Flávio e José Maria indagaram sobre o autor a outro grupo paulistano que também montou ‘‘O Defunto’’. Na paulicéia ninguém sabe do autor. Para eles, Obaldia é um mistério.
Os atores Flávio Rex e José Maria convidaram para a direção do espetáculo Ceres Vittori Silva. Professora, psicopedagoga, atriz e coreógrafa, Ceres prescindiu do trabalho corporal nesse espetáculo. ‘‘Mas o espetáculo é desenhado do começo ao fim. Não é uma narrativa, mas um roteiro de imagens intrínsecas’’, explica a diretora. O resultado é uma composição detalhada em imagens dançadas que separam os dois mundos situados na peça, onde as diferenças se completam e se misturam, provocando o questionamento e o riso.
Os atores conceberam a luz e o figurino do espetáculo, quase todo reciclado do lixo. A trilha sonora foi buscar referências no canto de pássaros brasileiros, completando com a sonoridade exótica de Bjork e Dee-lite. A Cia. F.U.M. estréia na ribalta com ‘‘O Defunto’’. Flávio Rex, artista plural, é jornalista, artista plástico, fotógrafo, ator e produtor. José Maria cursa o 2º ano de Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina e atua no Grupo de Teatro Núcleo I.
‘‘O Defunto’’, adaptação do texto de René de Obaldia, direção de Ceres Vittori Silva. Dias 6, 7 e 8 de outubro, às 21 horas, no Teatro Núcleo I. Rua Quintino Bocaiuva, nº 1243, em Londrina. Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes, aposentados e classe artística). O espetáculo será reapresentado nos dias 13, 14 e 15 de outubro. Apoio cultural: Núcleo I, Alea Comunicação, Tribo dos Pés, Shopping Pio XII e Sigma.