Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Aos poucos a viola caipira vai ocupando seu espaço, tornando-se conhecida nos meios musicais que querem ir além do ramerrame massificado. A sonoridade, o jeito de tocar, a tradição que ela carrega dá-lhe uma aura de nobreza, que chega a superar a carga do preconceito. Um projeto que o músico Roberto Corrêa está dando início por conta própria – ele espera por incentivos fiscais das empresas –, deverá lustrar essa imagem da viola com o resgate do passado secular, a vinda de Portugal ao Brasil, e até o nome poderá sofrer alteração. O ideal é deixar de se chamar ‘‘viola caipira’’ e passar a ser ‘‘viola de arame’’.
Roberto Corrêa é um nome internacional nessa arte, e o mais importante do Brasil. Este ano ele colocou como prioridades dois objetivos: a realização do projeto ‘‘Viola de Arame – Tradição Encordoada’’, e o lançamento do volume ‘‘Arte de Pontear a Viola’’. ‘‘Desde 1983 venho anunciando esse livro’’, diz, aliviado. ‘‘Ali estão as técnicas que aprendi com violeiros antigos; os ritmos principais da música caipira. Ensino como tocar’’.
Logicamente a obra será destinada aos instrumentistas, mas também tem uma parte teórica e histórica que ‘‘poderá servir ao leigo como fonte de consulta’’. Corrêa avisa que este será ‘‘um livro muito autoral’’. Não poderia ser diferente, pois é a sua visão como músico e pesquisador de cultura popular. ‘‘Sou um violeiro caipira e vou dizer da minha experiência e vivência herdadas da minha tradição’’, resume.
O desafio maior, e duplamente apaixonante, é o mergulho que ele fará na história do instrumento, por intermédio do projeto ‘‘Viola de Arame – Tradição Encordoada’’, em parceria com sua mulher, Juliana. Ainda não foram fechados patrocínios, mas a proposta ostenta o selo da Comissão Bilateral Executiva Brasil-Portugal para as Comemorações dos 500 Anos da Viagem de Pedro Álvares Cabral, do governo português.
A idéia é fazer o caminho inverso da viola, que aportou em terras brasileiras no final do século 18. Corrêa pesquisará aqui as raízes musicais e tomará o rumo de Portugal, mantendo contato com os violeiros das regiões mais tradicionais nesta área. Então será gravado um álbum duplo: num CD estarão os velhos mestres portugueses e brasileiros, e no outro as músicas de Roberto Corrêa. Os discos farão o contraste entre o tradicional e o moderno.
‘‘É a minha maneira de tocar’’, sublinha o artista. ‘‘Sou um violeiro moderno que está fazendo um trabalho moderno – o de colocar a viola num patamar onde ela seja um instrumento mais bem aproveitado. Existe a crença de que a viola não tem recursos, só serve para acompanhar, e não é nada disso. Seus recursos são infinitos e essa é a minha proposta: mostrá-la como instrumento solista’’.
O projeto prevê a realização de recitais e concertos que serão levados nas capitais brasileiras, prosseguindo com apresentações em Portugal, Itália e Espanha. Também faz parte um circuito universitário pelo interior do Brasil, criando maior proximidade com os estudantes.
‘‘Viola de Arame – Tradição Encordoada’’ visa ainda reabilitar o nome ‘‘viola de arame’’, que é muito mais apropriado, segundo Corrêa. Ele explica que no final do século 18, quando o instrumento chegou ao Brasil, suas cordas, que até então eram feitas de tripas de animais, foram substituídas pelas de arame. Daí veio o nome que permanece até hoje em Portugal. O brasileiro mudou-o para ‘‘viola caipira’’, e essa troca serviu mais para atrapalhar que ajudar, critica o músico.
Viola caipira, viola sertaneja, de dez cordas, de fandango, entre dezenas de outros nomes indicam um único instrumento, mesmo que tenham particularidades na sua construção. ‘‘Tudo isso é viola de arame. Através de nosso projeto estamos firmando esse nome’’, diz Corrêa. Ele, porém, emenda uma justificativa: ‘‘Como sou caipira e tenho orgulho disso, por muito tempo acabei chamando o instrumento de viola caipira. Agora estou mudando’’.