UM CULTO À VIOLÊNCIA
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
A Fox está fazendo o que pode para tentar salvar, se não tudo, pelo menos parte do inacreditável orçamento de 68 milhões de dólares enfiados neste Fight Club, que entra hoje em circuito nacional (confira programação de cinema na página 4). Algumas - pouquíssimas e suspeitas - resenhas iniciais na grande imprensa americana, com imediata ressonância na pasteurizada vassalagem tupiniquim, tentaram contornar e administrar o inevitável fracasso artístico e comercial, salvaguardando, preservando e transferindo o filme para os generosos e estritos limites do território cult. Manobra de resto inútil: apesar das tergiversações intelectualóides, Clube da Luta não consegue ser nada além do que realmente é: um exercício histérico de homofilia, uma espécie de perverso jogo sadomasoquista, a celebração do caos, do niilismo e da violência como férteis pré-requisitos para o surgimento de uma (des)ordem fascista. Não fosse o filme, ainda, uma comédia...
Perseguido e atormentado por uma insônia que põe em risco a sanidade, o personagem de Edward Norton, que também é o narrador, vaga pela cidade frequentando, todas as noites, insólitas associações de viciados, doentes e hipocondríacos anônimos e lunáticos. Até que seu caminho cruza com o de dois seres à deriva: uma fumante inveterada, Marla Singer (Helena Bonham Carter), à procura de alguém ou alguma coisa que a desperte por dentro e por fora. E o anarquista Tyler Durden (Brad Pitt) - como garçom de restaurante de luxo, urina na sopa dos ricos - com um propósito bem definido: um Fight Club onde é possível sentir-se vivo (não quero morrer sem cicatrizes). Durden intui que o insone é um cúmplice potencial para o percurso niilista e de imediato destrói o apartamento do novo amigo, porque somente quando perder tudo estará livre para fazer o que quiser. O Clube da Luta logo se transforma no Projeto Tumulto, destinado a explodir o coração da economia mundial.
Machos que se batem contra outros machos para sufocar frustrações e ansiedade. Machos convencidos que a masturbação é redentora e que a autodestruição é uma resposta. Machos obcecados, insones, insatisfeitos, em estado de confusão mental. Este o perfil que Fight Club traça do homem americano contemporâneo. Não há dúvida: o argumento era de fato recheado de boas idéias, arquivadas ao longo de uma exaustiva e pedante narrativa.
Baseado no romance de estréia de um mecânico de caminhões, Chuck Palahniuk, escrito em apenas três meses e sempre à mão, Fight Club foi comprado pela executiva Laura Ziskin, cabeça da Fox-2000, e roteirizado por outro novato, Jim Ulhs. Para a direção foi chamado o novo must da cinefilia desvairada, o estiloso David Fincher, leia-se Seven e O Nome do Jogo (The Game), 37 anos, o homem dos famosos spots comerciais da Nike, Coca-Cola e Chanel, além de videoclips-cult para Madonna, Aerosmith e Rolling Stones. Fincher é visto por uma parcela da crítica mais vulnerável aos modismos da mesma forma que o cinema iraniano tem sido indistintamente avaliado por essa mesma crítica: duvidosos cem por cento de aprovação. O diretor teve uma estréia auspiciosa com Seven (Os Sete Pecados Capitais), um policial de inegável criatividade em que a mão prodigiosa do técnico em muitos momentos supera a do cineasta. Essa impressão foi reforçada mais recentemente em The Game, um vibrante, caleidoscópico exercício de suspense e estilo cercado de vazio por todos os lados. E o resultado em Fight Club é um filme confuso, um Cronenberg sem coragem, um Terry Gilliam menor, alguma coisa distante, um ponto indefinível entre Matrix e Os 12 Macacos. Fincher frustra expectativas, embaralha a narrativa. Por conta de excessos, perde a oportunidade para uma amarga denúncia sobre a crise de valores e sobre o declínio do império americano.





