Um crítico movido a História
Agência Folha
Na ocasião do lançamento do livro História Concisa do Teatro Brasileiro, em abril, o crítico teatral Nelson de Sá, da Folha de São Paulo, conversou com o escritor Décio de Almeida Prado, e procurou desvendar os motivos pelos quais o pesquisador convergiu seus estudos para os primódios do teatro brasileiro. Além do profundo interesse por períodos obscuros da nossa literatura, Prado se revela uma testemunha ocular da história teatral brasileira deste século. A seguir, leia trechos da entrevista:
Até que ponto o projeto de escrever a história do teatro, em livros como História Concisa do Teatro Brasileiro, guarda relação com a obra de Antonio Candido para a literatura?
Sem combinar, nós todos da revista Clima nos voltamos um pouco para a formação das nossas diferentes áreas. O Antonio Candido de maneira muito mais desenvolvida, coerente, muito mais sistemática. Ele deu nome ao livro, Formação da Literatura Brasileira, discutiu esse problema da formação. Mas veja que eu também me voltei para o estudo da formação do teatro brasileiro. O Paulo Emílio (Salles Gomes) escreveu sobre Humberto Mauro, que, num certo sentido, é o formador do cinema brasileiro. A Gilda (de Mello e Souza) escreveu sobre a moda no século 19, que foi o século em que o Brasil se tornou nação. Todos temos sempre um interesse em procurar no passado raízes para o presente.
Seu relato histórico é baseado mais na literatura que na encenação?
Não é tanto assim, não. Já escrevi livros sobre João Caetano, ator, sobre Procópio (Ferreira), sobre a Cacilda (Becker). Eu sou muito ligado ao palco, porque fui ator de teatro amador, fui diretor. Portanto, tenho uma relação com o teatro de palco, não só de literatura. Mas neste meu livro, procuro falar não só dos autores, mas também um pouco dos atores e um pouco até do público.
O que levou o senhor e seus amigos a se fixarem, já no fim do século, como um grupo de historiadores?
Eu divido a minha atividade de escrever em duas fases, uma ligada ao presente, quando fui crítico de O Estado de S. Paulo por 22 anos. Aí é a reação imediata sobre os espetáculos, os autores. Depois passei a ser professor da Faculdade de Filosofia, na seção de Letras. Aí, naturalmente, cabia a mim encarar a história. Você não pode ensinar literatura sem estudar a história da literatura. O sujeito, para estudar química, não precisa estudar toda a história da química, porque a ciência vai ultrapassando os seus próprios progressos, e não é necessário refazer todo o percurso. No caso da arte, é diferente. O que foi escrito no século 16 não está morto. Camões não morreu, continua sendo lido, estudado. Shakespeare está vivíssimo até hoje.
A arte não morre?
O ponto de partida em arte, pelo menos o meu ponto de partida, é que a obra de arte nunca morre. A obra de arte permanece. Evidentemente, ela pode estar mais ou menos viva. Quando a gente começa a ler, está muito preso ao momento presente. Aquilo que acaba de surgir você pensa que será a coisa que vai durar para sempre, que vai ser eterna. Depois, com a idade, percebe que não, que aquilo que você julgou que era um momento eterno é um momento histórico como os outros. E você vai se abrindo para os momentos anteriores. Você começa a achar graça numa peça do século 19, do século 18. Eu posso falar isso porque, no teatro amador, eu montei peça do Gil Vicente, que é o início do teatro em língua portuguesa. Para mim, o Gil Vicente não estava morto. Assim também montei uma peça do Martins Pena, para ter contato com o início da comédia brasileira. Você vê, portanto, que desde o começo eu tive essa motivação histórica.





