O professor, escritor e poeta Décio Pignatari, 71 anos, um dos criadores do movimento concretista brasileiro, está morando em Curitiba, cidade que escolheu para viver depois de esgotar todas as possibilidades de ficar em São Paulo. O Rio de Janeiro ele aproveitou durante os anos 60 e 70, mas hoje tornou-se um lugar inviável: ‘‘A violência é uma coisa atemorizante.’’ Na chamada ‘‘Cidade Maravilhosa’’ tudo gira em torno de códigos - onde vai, como vai e em que hora vai.
Pignatari e sua mulher Soraya aos poucos vão dando feição ao apartamento para onde se mudaram, no bairro Juvevê, enquanto planejam a retomada das atividades profissionais. Ambos são professores e estão discutindo sobre trabalho com a direção da Universidade Tuiuti. Pignatari com certeza atuará nos cursos de pós-graduação.
Os bons dias curitibanos não criam cortina de fumaça para os olhos críticos do ensaísta que, na conversa com a Folha2, fez duras críticas ao País, aos políticos, ao funcionalismo público, aos políticos e à viciada politicagem. Não poupou a esquerda nem a direita. Para ele, assim como existe o caos, há também a saída. É somente uma questão de se assumir atitudes para virar o jogo.
Essa visão contundente como uma navalha, a cortar a realidade brasileira para esmiuçar seus tecidos, está por inteiro no livro ‘‘Cultura Pós-Nacionalista’’, lançamento da Editora Imago, que, infelizmente para o autor, não criou a polêmica que gostaria. Ali está uma série de ensaios onde defende um ‘‘Brasil internacionalista’’.
‘‘O nacionalismo provocou um atraso enorme na cultura brasileira, especialmente porque houve uma aliança espúria entre o varguismo do Estado Novo, quer dizer, a ditadura de direita, com o comunismo de Prestes e Stálin, que era de esquerda’’, afirma. Com isso a arte no País foi sufocada; a música, literatura, pintura tinham que seguir os ditames do realismo-socialista. O mundo caminhou e o Brasil ficou num atraso em que se debate ainda hoje, com excessão das artes plásticas, que conseguiu pular fora desse círculo e avançar.
Décio Pignatari não entende a ‘‘frouxidão ideológica brasileira’’, que acomete historicamente a nação. ‘‘Ideológica e politicamente temos o hímen complacente’’, dispara. E dá exemplos citando o absurdo que seria se ocorressem em outras plagas batismos oficiais como acontecem aqui. É impossível imaginar nomes de lugares públicos como Benito Mussolini na Itália, ou Adolf Hitler na Alemanha. Mas no Brasil os ditadores têm sua memória reverenciada.
‘‘Aqui você tem viadutos Castelo Branco, avenidas Getúlio Vargas, Fundação Getúlio Vargas e, mais do que isso, os órfãos de Stálin, como o Niemeyer, Darcy Ribeiro, Brizola... Aliás, toda essa turma do Partidão vive elogiando Vargas’’, escandaliza-se. O arquiteto Oscar Niemeyer recebe do professor tintas menos complacentes às quais está acostumado, tido sempre como gênio.
‘‘A arquitetura brasileira ficou para trás, está toda atrasada. Continua ainda na base do concreto e vidro, e nós temos a grande tecnologia hoje do ferro, aço, não-ferrosos e ninguém sabe usar’’, espinafra o professor que passou boa parte de sua vida dando aulas para futuros arquitetos.
E nós temos informação dessa nova tecnologia? Sim, informação é que não falta, o problema é que ‘‘o modelo Niemeyer arrebentou com o Brasil’’. Para Décio Pignatari os ‘‘governantes ignorantes acham que o Brasil só tem um arquiteto que é Niemeyer. Veja o horror que é aquele troço do Centro Cívico (Edifício Castelo Branco, em Curitiba): tudo fechado para o verde. Ridículo. A própria FAU, do Villanova Artigas, é toda fechada de concreto, para você não olhar para fora.’’
O que ele não entende é a total ausência de incentivo aos jovens arquitetos. ‘‘Por que não os chamam, não se fazem concursos internacionais de arquitetura como o mundo todo faz?’’, indaga. Até mesmo a França, quando foi construir o Centro Pompidou, promoveu um concurso para o mundo inteiro. ‘‘Nós ficamos defendendo nosso mercadinho e fica esse lixo’’- avalia.
O Brasil é muito mais que arquitetura neste final de século e de milênio. E o que está acontecendo? ‘‘Estamos recebendo os choques da transformação, porque crise não é só aquela que você tem quando está piorando. Tem também a crise do crescimento. Aquele que não sabe crescer, também entra em crise e é o que está acontecendo conosco’’, diz.
Porém, o grande problema nacional é o déficit público, mas ninguém quer se deter neste assunto. Os políticos ocupam-se tão somente em reclamar por verbas públicas, ‘‘para não cortar gente, para fazer sua média’’. O gasto excessivo deveria ser cortado na raiz, mas não é. ‘‘Não sabemos o que é austeridade, não sabemos praticar austeridade’’, comenta o professor.
Quando andou pela Europa, em 1955, ou seja, dez anos após o término da guerra, na Inglaterra ainda se distribuíam tickets de racionamento de pão e leite. Foi uma das medidas para a casa entrar em ordem. ‘‘Isso é austeridade; aqui é uma bagunça, uma farra’’- conclui contundente.

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