Francelino França
De Curitiba
O diretor Antônio Abujamra enxergou no avesso da tragédia o código ideal para contar sua versão de ‘‘Crimes Delicados’’, texto já encenado por ele e assinado por José Antônio de Souza. Para preencher o imaginário da platéia, o velho Abu buscou nas imperfeições de Hugo e Lila (Paulo Goulart e Nicete Bruno), a fórmula para criticar a banalização da violência. Ele conseguiu expurgar subjetivamente nosso instinto assassino. Afinal, matamos de todas as formas. Abujamra instalou numa casa classe média um incontrolável desejo de matar, com a marca de seu DNA debochado e irreverente.
Na estréia do espetáculo, que aconteceu na sexta-feira, no Guairinha, no segundo dia do Festival de Teatro de Curitiba, a marca da maldade pairava sobre o palco o tempo todo. Ao optar pela repetição de cenas e textos, o diretor traçou um paralelo com o eterno retorno da empregada Efigênia (Bárbara Bruno Goulart), que volta mesmo depois de esquartejada. Cenas surrealistas se repetiam, no melhor estilo da volta dos que não foram desta para melhor. Com a variação sobre o mesmo tema, o diretor referendou a máxima de que o riso é o canal mais imediato de entendimento. A discussão colocada em cena, nos faz refletir sobre a banalização e sofisticação da violência. Os noticiários nos estarrecem com manchetes de jovens de classe média metralhando espectadores em cinema.
‘‘Hugo, quando vamos fazer nosso crime?’’ foi reforçado de várias maneiras. A cada repetição do texto com uma tônica diferente, uma enxurada de imagens inundava o inconsciente do espectador. Abujamra não é apenas adiposamente rabugento. O senhor de voz poderosa é esperto em seu ofício. Conhece o campo minado pelo qual caminha, detona os conceitos mais elementares da arte dramática. Sacou que num pequeno trecho absurdo poderia conseguir um efeito mais absurdo ainda.
Dava para visualizar o velho Abu com seu controle remoto dominando o ritmo das cenas. Nicete Bruno como rapper mostrou seu futuro na área musical, mesmo sem ter sido fruto da periferia paulistana. Abujamra sarcasticamente assassinou desafetos e malas que aparecem em seu caminho. Ou pelo menos riu deles. Dois peixinhos mortos eram delicadamente chamados de Sandy e Júnior. O gato assassinado atendia pelo nome de Mauro Rasi. E o cachorro estrangulado pela coleira era carinhosamente chamado de Gerald Thomas.
Nos anos 70, o texto de José Antônio de Souza reagia veementemente à ditadura verde-oliva. Naquele painel histórico militar, havia razões para acontecer sumiços. Nas entrelinhas, José Antônio de Souza fazia pilhéria com a atitude dos militares golpistas. Abujamra orientou seu olhar diretamente para esse foco, o humor existente subliminarmente em ‘‘Crimes Delicados’’.
Há pequenos e delicados crimes nesse espetáculo. O primeiro se refere ao cenário de Renato Scripilliti. O que foi apresentado era uma verdadeiro embuste cenográfico. O cenário, de planejamento anêmico, não estava à altura da proposta dessa comédia de costumes. O final também foi uma escorregadela do peso pesado do teatro nacional. Repentinamente, tudo deixa de ser um jogo. Hugo começa a chamar Lila de Nicete Bruno e ela descamba para um discurso sobre a experiência teatral.
‘‘Crimes Delicados’’ nos faz rir das nossas imperfeições. Que atire a primeira pedra quem nunca deixou emergir esse instintivo desejo de matar. Quem eu gostaria de matar? Nem às paredes confesso.O DNA debochado de Antonio Abujamra marca ‘‘Crimes Delicados’’, que foi mostrado sexta e sábado no festival
Márcio Scatrut‘‘Crimes Delicados’’: espetáculo reverencia a máxima do risoMárcio Scatrut‘‘Crimes Delicados’’ teve lotação esgotada logo na primeira sessão

mockup