A noite caiu tranquila na fazenda e o engenheiro Oswaldo Guimarães não viu nenhum disco voador. Este era o principal objetivo de sua viagem a Botucatu, no interior de São Paulo, em 1980. Diziam que lá naves alienígenas apareciam. Guimarães resolveu insistir no assunto com o dono do local:
- Mas aqui não acontece nada de estranho?
- Nada.
Foi aí que o filho do homem atravessou a conversa:
- Mas pai, e aquele dia que o cavalo passou correndo pela gente sem ninguém em cima?
- Ah, aquilo não era nada estranho não, só um saci.
A curiosidade do engenheiro cresceu:
- Mas aqui tem saci?
- Antes tinha mais, agora está diminuindo.
Em outra viagem, desta vez para Itajubá, em Minas Gerais, o assunto ressurgiu. Foi num bar, quando apontaram um sujeito e revelaram:
- Aquele homem cria saci em cativeiro.
Dessa vez não deu para segurar. Oswaldo chegou perto do cidadão, puxou assunto e ouviu várias histórias. O papo se prolongou até que o engenheiro foi convidado para ver a criação. No sítio, andaram pela mata até algumas gaiolas, que - segundo Guimarães - abrigavam casais de sacis.
‘‘Eu fiquei impressionado, era parecido com a versão do Monteiro Lobato, é uma visão encantadora, bonita. É gostoso ver uma lenda, eles são muito ariscos’’, comenta. Oswaldo Guimarães esteve em Londrina, onde participou do show ‘‘São Gonçalo e o Saci’’, ao lado do violeiro Paulo Freire e da cantora Ana Salvagni, no final do mês passado, falando da Associação e contando histórias sobre o personagem.
Para quem acha que criar saci é coisa de maluco, a história se estende. Guimarães resolveu levar um casal para Botucatu, onde eles estariam desaparecendo. O homem da criação concordou e, conforme o engenheiro, a viagem foi feita à noite para proteger os bichos e evitar uma blitz rodoviária.
‘‘Transportamos à noite. Se a polícia nos parasse, como é que eu iria explicar que estava levando um casal de sacis? Em Botucatu fizemos o viveiro. No início os bichinhos não saíam para a mata, tivemos que ir colocando o alimento cada vez mais longe das gaiolas. Aí eles foram saindo. Já apareceram novos sacis por lá, deve ter por volta de 15 ou 16’’, explica.
A coisa cresceu tanto que Oswaldo Guimarães fundou até uma Associação Nacional dos Criadores de Saci, registrada em Botucatu com quase 70 sócios. ‘‘A Associação congrega médicos, biólogos, juízes, advogados, dentistas, enfim, vários profissionais. Todos na associação criam sacis, mas nem todos vão para a mata. Alguns criam no sentido de contar histórias e resgatar o folclore’’, ressalta.
Mas o interesse de divulgar histórias de sacis não deve ser confundido com a criação que Guimarães diz ter em Botucatu. Ele garante que o bicho existe - seria uma espécie de primata que, na idade adulta, chega a um metro de altura. Mesmo com uma perna só, o saci seria muito ágil e brincalhão.
‘‘Ele é um bicho ereto, com postura e feições parecidas com a do ser humano, de coloração marrom escura. E corre muito rápido, é esperto e mexe em tudo que balança, como roupas no varal, ferramenta, crina de cavalo. O saci vive mascando galhos de bambu, o que pode ser associado à imagem do cachimbo’’, revela.
Mas por que um bicho desse ainda não foi fotografado, gravado em VHS ou catalogado pelos biólogos? Para os criadores de saci a coisa não é tão simples: ‘‘Dizem que se tirar fotografia, o bicho morre. Nunca tentamos. Mas não tiramos para não definir o saci e retirar o pitoresco que há em cima da figura dele. Por isso o prezamos ao máximo. Já tivemos propostas incríveis e recusamos. E mantemos a exatidão do local em sigilo, para evitar a visita de curiosos.’’
Para quem quiser observar sacis, Guimarães informa que a tarefa não é das mais fáceis. ‘‘Podemos passar a tarde inteira sem vê-los. Agora, se você levar um violeiro para a mata, tocar e conversar bastante, com uma cachacinha, você vai perceber que os sacis estão por perto.’’
Os sacis estariam diminuindo por causa da urbanização da zona rural. Com a luz, o bicho não se aproximaria das fazendas, recolhendo-se na mata. ‘‘Está tudo iluminado, e ele não vem no claro, se afasta das casas. Antes, com o lampião, existia um mistério de sombras e ruídos, e as pessoas conseguiam imaginar o saci, isso alimentava mais o folclore’’, assegura Guimarães.
Perpetuar as histórias de sacis é um dos principais objetivos da Associação. ‘‘A gente quer que as pessoas nos mandem histórias, não precisam se preocupar se são verdadeiras. Não vamos desmitificar a imagem do saci porque não somos donos da verdade, queremos manter o mistério, por isso ninguém vai catalogá-lo. Quem conhece sacis não quer isso’’, argumenta.
As idéias de Guimarães passam pela preservação do saci no imaginário popular. O engenheiro quer que o bicho volte a ser responsabilizado por nós nas crinas dos cavalos, barulhos suspeitos à noite, traquinagens cometidas nas fazendas e até aparições inesperadas. Quem quiser colaborar, pode enviar um e-mail para o endereço [email protected] PachecoOswaldo Guimarães, presidente da Associação dos Criadores de Saci: ‘‘Eles são espertos e mexem em tudo que balança, como roupa no varal’’O engenheiro Oswaldo
Guimarães, presidente da
Associação Nacional de
Criadores de Saci, afirma que
cria o bicho em Botucatu

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