Um criador de sacis
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terça-feira, 08 de setembro de 1998
Ranulfo Pedreiro 
A noite caiu tranquila na fazenda e o engenheiro Oswaldo Guimarães não viu nenhum disco voador. Este era o principal objetivo de sua viagem a Botucatu, no interior de São Paulo, em 1980. Diziam que lá naves alienígenas apareciam. Guimarães resolveu insistir no assunto com o dono do local:
- Mas aqui não acontece nada de estranho?
- Nada.
Foi aí que o filho do homem atravessou a conversa:
- Mas pai, e aquele dia que o cavalo passou correndo pela gente sem ninguém em cima?
- Ah, aquilo não era nada estranho não, só um saci.
A curiosidade do engenheiro cresceu:
- Mas aqui tem saci?
- Antes tinha mais, agora está diminuindo.
Em outra viagem, desta vez para Itajubá, em Minas Gerais, o assunto ressurgiu. Foi num bar, quando apontaram um sujeito e revelaram:
- Aquele homem cria saci em cativeiro.
Dessa vez não deu para segurar. Oswaldo chegou perto do cidadão, puxou assunto e ouviu várias histórias. O papo se prolongou até que o engenheiro foi convidado para ver a criação. No sítio, andaram pela mata até algumas gaiolas, que - segundo Guimarães - abrigavam casais de sacis.
Eu fiquei impressionado, era parecido com a versão do Monteiro Lobato, é uma visão encantadora, bonita. É gostoso ver uma lenda, eles são muito ariscos, comenta. Oswaldo Guimarães esteve em Londrina, onde participou do show São Gonçalo e o Saci, ao lado do violeiro Paulo Freire e da cantora Ana Salvagni, no final do mês passado, falando da Associação e contando histórias sobre o personagem.
Para quem acha que criar saci é coisa de maluco, a história se estende. Guimarães resolveu levar um casal para Botucatu, onde eles estariam desaparecendo. O homem da criação concordou e, conforme o engenheiro, a viagem foi feita à noite para proteger os bichos e evitar uma blitz rodoviária.
Transportamos à noite. Se a polícia nos parasse, como é que eu iria explicar que estava levando um casal de sacis? Em Botucatu fizemos o viveiro. No início os bichinhos não saíam para a mata, tivemos que ir colocando o alimento cada vez mais longe das gaiolas. Aí eles foram saindo. Já apareceram novos sacis por lá, deve ter por volta de 15 ou 16, explica.
A coisa cresceu tanto que Oswaldo Guimarães fundou até uma Associação Nacional dos Criadores de Saci, registrada em Botucatu com quase 70 sócios. A Associação congrega médicos, biólogos, juízes, advogados, dentistas, enfim, vários profissionais. Todos na associação criam sacis, mas nem todos vão para a mata. Alguns criam no sentido de contar histórias e resgatar o folclore, ressalta.
Mas o interesse de divulgar histórias de sacis não deve ser confundido com a criação que Guimarães diz ter em Botucatu. Ele garante que o bicho existe - seria uma espécie de primata que, na idade adulta, chega a um metro de altura. Mesmo com uma perna só, o saci seria muito ágil e brincalhão.
Ele é um bicho ereto, com postura e feições parecidas com a do ser humano, de coloração marrom escura. E corre muito rápido, é esperto e mexe em tudo que balança, como roupas no varal, ferramenta, crina de cavalo. O saci vive mascando galhos de bambu, o que pode ser associado à imagem do cachimbo, revela.
Mas por que um bicho desse ainda não foi fotografado, gravado em VHS ou catalogado pelos biólogos? Para os criadores de saci a coisa não é tão simples: Dizem que se tirar fotografia, o bicho morre. Nunca tentamos. Mas não tiramos para não definir o saci e retirar o pitoresco que há em cima da figura dele. Por isso o prezamos ao máximo. Já tivemos propostas incríveis e recusamos. E mantemos a exatidão do local em sigilo, para evitar a visita de curiosos.
Para quem quiser observar sacis, Guimarães informa que a tarefa não é das mais fáceis. Podemos passar a tarde inteira sem vê-los. Agora, se você levar um violeiro para a mata, tocar e conversar bastante, com uma cachacinha, você vai perceber que os sacis estão por perto.
Os sacis estariam diminuindo por causa da urbanização da zona rural. Com a luz, o bicho não se aproximaria das fazendas, recolhendo-se na mata. Está tudo iluminado, e ele não vem no claro, se afasta das casas. Antes, com o lampião, existia um mistério de sombras e ruídos, e as pessoas conseguiam imaginar o saci, isso alimentava mais o folclore, assegura Guimarães.
Perpetuar as histórias de sacis é um dos principais objetivos da Associação. A gente quer que as pessoas nos mandem histórias, não precisam se preocupar se são verdadeiras. Não vamos desmitificar a imagem do saci porque não somos donos da verdade, queremos manter o mistério, por isso ninguém vai catalogá-lo. Quem conhece sacis não quer isso, argumenta.
As idéias de Guimarães passam pela preservação do saci no imaginário popular. O engenheiro quer que o bicho volte a ser responsabilizado por nós nas crinas dos cavalos, barulhos suspeitos à noite, traquinagens cometidas nas fazendas e até aparições inesperadas. Quem quiser colaborar, pode enviar um e-mail para o endereço [email protected] PachecoOswaldo Guimarães, presidente da Associação dos Criadores de Saci: Eles são espertos e mexem em tudo que balança, como roupa no varalO engenheiro Oswaldo
Guimarães, presidente da
Associação Nacional de
Criadores de Saci, afirma que
cria o bicho em Botucatu


