Em reprise somente nesta terça-feira (18) em Londrina, "Um Corpo que Cai", como quis o título brasileiro, ou "Vertigo/Vertigem", o original imaginado pelos realizadores - Hitchcock e os roteiristas Alec Coppel e Samuel A. Taylor - tem hoje lugar de honra no imaginário da crítica cinematográfica. Foi recebido com frieza em sua estreia mundial, em maio de 1958. Público e imprensa foram indiferentes. O próprio Hitchcock, no icônico livro-entrevista escrito a quatro mãos durante anos a fio com o realizador François Truffaut, disse que "a renda do filme deu para o gasto", e que "a culpa foi do marketing, que não soube como vendê-lo".

'Um Corpo que Cai': sem dúvida um dos filmes mais sombrios do mestre Hitchcock  e sem final feliz
'Um Corpo que Cai': sem dúvida um dos filmes mais sombrios do mestre Hitchcock e sem final feliz | Foto: Reprodução



Pensando bem, naquele momento do lançamento, o próprio Hitchcock foi um pouco indiferente ao trabalho. "Vertigo" definhou, ao lado de clássicos instantâneos do cineasta, como "Intriga Internacional" (59) e "Psicose" (60). E, eventualmente, Hitchcock o tirou de circulação e o escondeu por um bom tempo, até sua reestreia póstuma.

O tempo, porém, se encarregou de colocar o filme em posição privilegiada, transformando-o numa espécie de totem cultural, histórico e esteticamente relevante, grave e profundo. Na medida em que as reposições aconteciam, o filme passou a ser escalado nas mais prestigiosas listas de "melhores de todos os tempos", chegando inclusive a substituir o eternamente imbatível "Cidadão Kane" de Orson Welles (41) que dormia sob os louros de primeiro do ranking havia 50 anos.

E o que dizer sobre o filme em si, que se reapresenta somente hoje na cidade, em magnifica cópia restaurada e em uma única sessão noturna na serie de clássicos Cinemark, no Boulevard Shopping, às 20 horas. Com certeza absoluta é um dos filmes mais sombrios do mestre, e com certeza só tangencia aquela engenharia clássica do suspense. Entre outras ideias presentes está a necrofilia, mas estampada com elegância e sutileza. Não tem final feliz, e escapa a todos os subterfúgios morais que os códigos de produção de Hollywood impunham às produções daquela época, anos 1950. A trama policial logo fica em segundo plano, envolvida por um romance labiríntico, e muito já se disse sobre o poder hipnótico que o filme tem. É como se o espectador mergulhasse num transe do qual nunca há um verdadeiro despertar.

O roteiro foi adaptado da novela "De Entre os Mortos" (1954), da dupla de escritores franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac. A premissa é familiar aos amantes do 'noir': um detetive, Scottie (James Stewart), fora da ativa e sofrendo de acrofobia (medo de alturas) e vertigem, é contratado por um velho amigo para investigar pistas da bela e misteriosa mulher dele, Madeleine (Kim Novak), ultimamente com estranhos hábitos. Scott a segue e consegue inclusive salvá-la de uma tentativa de suicídio. Mas se apaixona por ela, para no entanto perdê-la lá pela metade do filme. Ele conhece então Judy (Kim Novak), muito parecida com Madeleine, tão parecida que Scottie quer transformá-la na outra. "Vertigo" corresponderia à definição clássica de "thriller psicológico", mas o próprio Hitchcock, falando a Truffaut no livro "O cinema segundo Hitckcock", explicava que "há no filme outro aspecto que chamaria de psicosexológico, e que é o impulso que anima este homem a recriar uma imagem sexual impossível: simplificando, Scottie quer fazer amor com uma mulher morta, e isto é necrofilia."

Seria Judy realmente Madeleine? Como sempre, Hitchcock optou por dar mais informação ao espectador do que a seu protagonista, germinando o suspense em vez de sacrificá-lo com um final com reviravoltas. Um equívoco comum, provavelmente aquele que resultou na descrença do público na estreia, é tomar "Um Corpo que Cai" como uma história de detetives e só. Tais histórias giram em torno da resolução de um enigma, e nada é mais frustrante quando o público o resolve antes que o herói.

O filme é sobre um pesadelo do qual é quase impossível escapar: é uma história de amor, e é sobre a necessidade de capturar e conservar esse amor. Há nele um mistério que resiste ao tempo e às interpretações. Há o fascínio do voyeurismo. O cromatismo de uma fotografia que muito informa. Há a sinfonia composta por Bernard Herrmann. Muito e arduamente se dissertou sobre o que faz de "Vertigo" um clássico intocável, ou o que seria aquele algo mais que faz sua transcendência na história do cinema.

Não foi nem polêmico, nem aclamado, e nem teve êxito, de bilheteria,apenas recebeu um par de nominações de uma ridícula Academia por direção de arte e som. E foi imediatamente remetido para cumprir longa quarentena. Em que então mudou o olhar da crítica?

Hoje, restaurado pela mais requintada tecnologia, o filme provoca um efeito ainda mais elegíaco em relação àquilo que era há mais de meio século. Fala da perda do irrecuperável, sempre mais óbvia com o passar do tempo, e da fútil ambição do ser humano para detê-lo. O que Scottie decide fazer para parar e recriar o tempo constitui uma bela alegoria do cinema. Neste sentido, "Um Corpo que Cai" trata da impossibilidade de reconstruir ficções, e o filme não nos fala simplesmente de Scottie e Madeleine, ou de Hitchcock e suas louras musas que ele procurou inutilmente sintetizar numa única mulher/atriz/fetiche. Acima de tudo, "Vertigo" nos fala do Cinema, e de sua ambição para deter o tempo onde o amor ainda existe.

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