Um corpo bachiano
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quarta-feira, 27 de novembro de 1996
Zeca Corrêa Leite 
O Grupo Corpo estreou este ano na França, na Bienal de Dança de Lyon, seu último trabalho, Bach. Juntou ao inédito a peça de dois anos atrás, Sete ou Oito Peças para um Ballet. Esse mesmo programa que levantou a platéia não só de Lyon - também de Grenoble, Annecy, Mihlouse, Le Creuzot e Sochaux -, sendo ruidosamente aplaudido durante dez minutos, estará no palco do Guairão, em Curitiba, apenas esta noite.
Bach tem música de Marco Antônio Guimarães, do grupo Uakti Oficina Instrumental, conjunto mineiro assim como o grupo de bailarinos. Mesmo tendo partido de temas e motivos de Johann Sebastian Bach, o mestre das fugas - e para muitos o mestre dos mestres universais -, fica a marca de sua originalidade, que contribui para a brasilidade do espetáculo. Aliás, Sete ou Oito Peças para um Ballet traz também outra criação de Guimarães, que se baseou no minimalismo de Philip Glass.
Programada para seis cidades, a turnê nacional do Corpo chega ao final. Depois de dançarem de quarta a domingo no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, os bailarinos sobem ao palco em Curitiba e deixam cair a cortina em Porto Alegre (de 29 a 2 de dezembro). Portanto, quem perder a chance só terá nova oportunidade daqui um ano. No mínimo.
Na qualidade de companhia-residente da Maison de la Danse, até quase a virada do século, o Corpo tem o compromisso de estrear as coreografias na França para depois correr mundo. A próxima temporada está marcada para dia 1º de dezembro de 1997, seguindo depois para uma turnê pelo país até o Natal.
Isso somente na França. Porque no primeiro semestre os brasileiros visitam Israel, Finlândia e Portugal. Sem contar que praticamente dois meses eles passarão em temporadas na Alemanha, Suíça, Bélgica e Holanda. Na América ficam algumas semanas entre setembro e outubro, apresentando peças do repertório ao público norte-americano.
Negro e azul Na busca da originalidade, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras e os colegas de palco avançam por outros espaços, explorando terrenos além do palco. Eles sobem ao oco que se situa acima do palco e abaixo dos urdimentos, escalando um cenário de tubos de metal.
Bach começa com um cenário onde a predominância é o negro. Um painel achata a imagem dos bailarinos; surge o azul no infinito, que aos poucos vai tomando conta do espaço aéreo. Do alto descem as figuras, para circularem livremente como numa caminhada sem fim. Negro, azul e dourado sucedem-se e misturam-se nas cenas.
Os franceses estavam ávidos para ver o Grupo Corpo e não se decepcionaram. Brasileiros na platéia também, como a crítica Helena Katz, de O Estado de São Paulo: A companhia dança espantosamente bem. Bach exige demais dos bailarinos, que se desincumbem da tarefa com uma competência que constrói performances inesquecíveis. Como o Bach original, esse Bach também veio ao mundo para despejar beleza.
Patrocínio Pois bem, com todo esse sucesso o grupo não está nadando em dinheiro como pode parecer. O diretor Paulo Pederneiras explica que estão à procura (urgente) de outro patrocinador, para somar-se à Shell e ao apoio do Ministério da Cultura. Manter um certo padrão de qualidade custa cada vez mais caro. E, no mundo todo, não há companhia de dança que se sustente de bilheteria, por maior que seja seu sucesso.
O pioneirismo da empresa de petróleo em tomar a si o encargo de cuidar do grupo, em 1989, tornou-se um marco. Para o elenco de notáveis talentos a participação da Shell foi decisiva para o grupo chegar onde chegou. Mas a trilha descortinou-se em 1976 com Maria Maria e mais tarde com O Último Trem. Vinte anos depois o Corpo caminha para a maioridade, com a marca do mais importante grupo brasileiro.
Grupo Corpo apresenta seu mais novo balé Bach(1996) e Sete ou Oito Peças para um Ballet (1994). Coreografia: Rodrigo Pederneiras; música de Marco Antônio Guimarães; figurinos: Freusa Zechmeister; iluminação: Paulo Pederneiras. Hoje, única apresentação no Guairão, às 21 horas. Ingressos: R$ 30,00 (preço único). Cheque somente especial da praça, com apresentação da carteira de identidade e cartão do banco.


