Um dos destaques da programação do Festival de Música de Londrina é o concerto do Coro Infantil que acontece no encerramento do evento, dia 20 de julho. O projeto ganhou corpo nessa edição e pelas dimensões são quase 300 crianças participantes pretende causar impacto não somente pelo concerto, mas pelo efeito multiplicador da música na vida das crianças e de seus familiares.
O contato diário com o universo musical deve irrigar o cotidiano dos integrantes do projeto e os primeiros frutos começam a germinar. A regente do Coro Infantil Lucy Schimiti possui o projeto ''Educação Musical Através do Canto Coral Um Canto em Cada Canto'' que leva música a seis escolas municipais da periferia de Londrina. A proposta recebeu a chancela da Lei de Incentivo à Cultura local. O patrocínio é da Caixa Econômica Federal. Algumas regiões como o Jardim João Turquino, Jardim Santa Fé e Conjunto São Lourenço são beneficiadas. O elenco infantil do coro faz parte desse projeto, além de outro número agregado durante o evento. Portanto, o trabalho no 22º FML não se caracteriza de maneira pontual, mas extrapola os limites.
A viagem musical das crianças começa num ônibus que parte de diferentes pontos da periferia. Os ensaios acontecem nas dependências da Igreja Metodista, região central da cidade. A voz de comando da regente Lucy Schimiti é a música. ''Certas canções que ouço/cabem tão dentro de mim/que perguntar carece/como não fui eu quem fiz/...''. Na canção de Tunay e Milton Nascimento, as crianças demonstram os motivos que atestam a musicalidade do brasileiro.
Os pequenos coralistas são divididos em dois grupos para facilitar o trabalho. ''Quem sabe me dizer o nome do objeto que o maestro usa?'', pergunta a regente. Depois de muitos terem respondido varinha, uma voz acertadamente disse ''batuta''. Segundo explicou às crianças, a ponta da batuta vai indicar o tempo que eles devem cantar.
Trazer as crianças para o centro, em contato com outra realidade espacial e musical, potencializa o aprendizado. O contato com um repertório eclético, pinçado de várias etnias amplia horizontes. ''As crianças absorvem conhecimentos musicais mais rapidamente do que o adulto'', avalia a regente. A expressão corporal associada à voz, o ritmo melódico e a coordenação motora estão entre os pontos trabalhados pela regente.
Como resultado quase imediato do contato com as regras do universo musical, o comportamento em sala de aula ganhou com a mudança de atitude. ''As atividades escolares que exigem concentração, atenção e memória reagem agora de forma mais rápida em diferentes conteúdos. A música não se limita somente à dimensão estética, mas também à dimensão humana'', ressalta Lucy.
O Brasil não é surdo. O Brasil tem um ouvido musical que não é normal, já bradou o baiano Caetano Veloso. Esse traço característico do povo brasileiro, ''a facilidade inata de aprender música, a musicalidade presente, independente do nível social'', foi ressaltada pela regente. O repertório traz uma alternância entre músicas mais rítmicas e outras mais serenas. Isso exige um planejamento criterioso das aulas e do repertório, que inclui a canção hebraica ''Haida'', ''Certas Canções'', de Tunay e Milton Nascimento, ''Body Talk'' (canção corporal/rítmica) ''Alô, Galera'' (rap), entre outras.
A música possui forte caráter social. No caso do Coro Infantil, a intensa vivência musical ao qual estão expostos, a oportunidade de se relacionar com grupos sociais distintos, de se conhecer, respeitar o comando e ouvir o colega, têm um efeito permanente na educação das crianças. Segundo a diretora pedagógica do Festival de Música de Londrina, Magali Kleber, a implementação da idéia de horizontalizar e socializar a parte pedagógica do evento foi processual e se efetivou nessa edição.
Num projeto dessa envergadura que reúne quase 300 crianças moradoras de áreas desassistidas socialmente, questões determinantes tanto sociais quanto familiares emergem. ''Há uma linha de pesquisa nesse sentido trabalhando com a sociologia da música. Portanto, nesse projeto com os alunos das escolas municipais há um embasamento teórico por trás'', argumenta Magali Kleber.

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