Um coração autobiográfico
Anos 80. Após duas décadas de ausência, um homem, diretor de cinema radicado nos Estados Unidos, volta à Argentina, sua terra natal, para visitar o pai, muito doente. Ele descobre que seu primeiro amor, que imaginava ter morrido depois de um pacto de suicídio feito entre ambos, ainda está vivo. Em sua busca, ele se apaixona por uma outra mulher, com quem vive a mesma paixão. Como se o tempo não tivesse passado, como se as duas mulheres fossem uma só.
Este, em resumo, o argumento de ‘‘Corazón Iluminado’’, que os franceses vão conhecer mês que vem como ‘‘Coeur Allum钒, e que Hector Babenco inicialmente sonhou como ‘‘Foolish Heart’’. A princípio acalentado como uma produção internacional, falada em inglês e com nomes famosos no elenco, ‘‘Coração Iluminado’’, por uma série de fatores, acabou falado em espanhol (terá uma versão dublada em português) com técnicos e atores argentinos e brasileiros - Xuxa Lopes, mulher do diretor, e a estréia de Maria Luisa Mendonça, a hermafrodita Buba da novela ‘‘Renascer’’. O filme, rodado em Quilmes, periferia de Buenos Aires, e também com locações brasileiras,‘‘é uma narrativa autobiográfica em certo momento infectada pelo vírus da ficção’’, como Babenco define nesta entrevista que concedeu via fax à Folha2 no fim de semana, de seu escritório na produtora HB Filmes, em São Paulo. (CELJ)
Com exceção de ‘‘O Rei da Noite’’, seu primeiro longa, baseado em argumento original, seus filmes seguintes foram adaptados de livros.‘‘Coração Iluminado’’, além de uma base autoral, também tem inspiração autobiográfica. O que provocou esta mudança?
Durante minha recuperação do transplante de medula óssea em 1995, um médico me deu um conselho: ‘‘Aqui só acreditamos na ciência, mas minha experiência me diz que você só se salvará se encontrar dentro de você aquilo que mais deseja realizar neste mundo’’. E eu comecei a desejar fazer um filme contando como tinham sido belos alguns momentos da minha juventude e como tinham sido importantes para a minha vida algumas pessoas que conheci naquela época.‘‘Coração Iluminado’’ seria uma forma de homenagear essas ‘‘figuras tortas’’, as primeiras que me apontaram as possibilidades do sonho e da utopia. Também quis homenagear o primeiro amor da minha vida, que emerge da relação com aquele grupo.
Em que medida ‘‘Coração Iluminado’’ é autobiográfico?
Pela primeira vez sou a matéria-prima do meu filme. Ou melhor, o ponto de partida para uma viagem aos meus anos de formação. Para escrever o roteiro, a memória desempenhou um papel fundamental. Não a memória biográfica, mas a memória emocional, que sofreu várias metamorfoses até transformar-se em material ficcional. Neste sentido, eu diria que talvez a melhor forma de contar uma verdade seja através de uma grande mentira. Poderia dizer também que o filme é uma narrativa autobiográfica em certo momento infectada pelo vírus da ficção.
Por que você você escolheu o escritor Ricardo Piglia para trabalhar em um roteiro tão pessoal?
Costumo dizer que sou um sonhador solitário, mas gosto de fazer um roteiro a quatro mãos. Por acaso, em 1992, li o livro ‘‘Respiração Artificial’’. Soube então que Piglia e eu tínhamos a mesma idade e que, como eu, ele também passara a juventude em Mar del Plata. No livro, ele fazia referência ao bar ‘‘Ambos Mundos’’, um reduto de alternativos, sonhadores e poetas dos anos 60 que ambos frequentávamos. Depois, descobri que tínhamos ido à mesma escola, mas por esses mistérios, nunca nos encontramos. Marcamos um primeiro encontro em Mar del Plata, aonde eu não ia há mais de 20 anos. Ficamos três semanas em um hotel, conversando sobre aquela época. Ao longo dos anos, esse processo se repetiu algumas vezes. Fizemos seis versões do roteiro, e devo dizer que este encontro foi uma das coisas mais importantes da minha vida.
O filme fala de um diretor de cinema radicado em Los Angeles que volta à cidade natal depois de 20 anos. Podemos esperar uma espécie de ‘‘em
busca do tempo perdido’’ ou ‘‘retrato do artista quando jovem’’?
Acredito que não, pois quando Juan retorna para visitar o pai que está internado em um CTI, descobre que Ana, seu primeiro amor que imaginava morta, está viva. Na busca por Ana encontra outra mulher, Lilith, com quem revive todo o tumulto avassalador da primeira experiência. E vivencia essas emoções como se o tempo não tivesse passado e como se as duas mulheres fossem a mesma. Se fosse possível reduzir o filme a uma equação, Poderia dizer que A busca B mas encontra C que é igual a B. E faz com C o que queria ter feito com B. Mas sabemos que a vida não é tão minimalista quanto as equações.
‘‘Coração Iluminado’’ se passa em duas época - anos 60 e 80. Como foi resolvida na narrativa esta volta ao passado ?
Um de meus orgulhos em relação ao roteiro é ter escapado inteiramente de uma abordagem nostálgica, sem narração em off ou flashback. Não me interessava contar aquela história como algo que aconteceu no passado, mas sim investigar as suas repercussões no presente. E a partir daí, elaborar que atitude involuntária este personagem seria obrigado a tomar perante uma volta tão convulsiva a uma sentimento de sua história, como se fosse um flashback ao contrário. Apostei nessa premissa e comecei a fazer bordados em torno dessa situação, recorrendo às lembranças que mais se impunham à minha memória fragilizada.
No início, ‘‘Coração Iluminado’’ teria elenco internacional, com Nastassja Kinski, Irene Jacob e Willem Dafoe. O que levou à substitução pelo elenco brasileiro e argentino ?
Este foi um longo processo. Quando cheguei à Argentina há cerca de um ano, dois meses antes do início das filmagens, comecei a entrar em crise de identidade como o filme. Não me sentia confortável, e aos poucos fui me dando conta de que não concebia ‘‘Coração Iluminado’’ falado em inglês. Não podia aceitar atrizes como Nastassja Kinski e Irene Jacob se expressando em espanhol. Foi muito difícil, até que Ricardo Piglia me disse:‘‘Escute o filme. Ele está falando. E ele não quer ser falado em inglês’’. Ele estava certo. Eu tinha acordos de produção com empresas estrangeiras, que se retiraram do projeto tão logo comuniquei minha decisão. Corria riscos mas me senti aliviado. E optei por dois atores argentinos, Walter Quiróz e Miguel Angel Solá, e duas atrizes brasileiras, Maria Luisa Mendonça e Xuxa Lopes. E em nenhum momento lamentei essas novas escolhas. Agora, só o tempo dirá. Estou muito feliz, e independente dos caminhos que o filme tiver, para mim, terminá-lo já foi uma grande vitória.

mockup