Um coquetel de cores e sons
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de maio de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Se a saga de ''Matrix'' equivaleu a toda uma revolução na maneira de entender os efeitos digitais, os irmãos Larry e Andy Wachowski voltam à carga com esta transposição do primeiro ''animé'' (a animação japonesa) da televisão, ''Speed Racer'', que passou despercebida em sua estréia em 1967 mas nas sucessiva reposição conquistou uma sólida base de fãs incondicionais atrelados ao imaginário pop e à uma proposta simplória mas eficaz.
As vertiginosas corridas dos bólidos idealizadas por Tatsuo Yoshida, originalmente batizadas Mach Go Go Go, impuseram um modelo estético que se mantém até hoje nas séries de desenhos animados japoneses e que permitiram aos Wachowski tentar aquilo que parecia ainda mais difícil. O principal, todo espectador com horas de ''pilotagem digitalizada'' em poltronas de cinema já sabe: nestes casos, atores reais atuam contra um fundo verde onde posteriormente são inseridos cenários e efeitos especiais através da pós produção digital. Mas o que este mesmo espectador não sabe é que em ''Speed Racer'' sempre existe este telão verde. E sempre quer dizer a todo momento, sem nenhuma chance para a realidade.
Também foram filmadas, em separado, imagens em alta definição de 360 graus em exteriores na Itália, Marrocos, Áustria, Turquia e no Vale da Morte, no deserto californiano de Mojave. Foram assim criados sets virtuais para neles encaixar as diferentes corridas que acontecem ao longo do filme, dando um aspecto final muito, mas muito semelhante a um videogame em terceira dimensão. Cinema, seu futuro parece ser hoje...
No núcleo do filme, a família Racer. Speed (Emile Hirsch) é o herói, muito jovem piloto que vive somente para o automobilismo de elite, tentando seguir os passos do irmão maior Rex, morto em plena disputa quando conduzia seu protótipo a mais de 600 quilômetros por hora. Speed corre com as cores da equipe do pai, Pops (John Goodman), gênio da mecânica.
A mãe do herói (Susan Sarandon), sua noiva (Christina Ricci), o irmão caçula (Paulie Pitt) e o chimpanzé Chim Chim darão o suporte na luta pela campeonato. Ah, e existe, claro, o vilão, aqui mais de escritório (Roger Allam), magnata que ameaça a família de Speed se ele não correr com a bandeira de seus patrocinadores.
O que não falta para a platéia é estimulação visual e sonora. Ela é tanta, chega aos olhos e aos ouvidos do espectador em tamanha profusão e embalada em tal sonoridade - rugir de motores, explosões multicores e música em simbiose e estridência para decibelímetro nenhum botar defeito - que os valores que o filme pretende enaltecer acabam capotando no acostamento. Na forma, o filme é isto. No fundo, deveria ser aquilo que o roteiro pretendia, mas não soube validar acima da tecnicolorida barulheira: a família como sustentação ante a adversidade e o perigo, a honra e o orgulho como valores a preservar. Neste sentido, ''Os Incríveis'' está anos-luz à frente de ''Speed Racer''. E com muito humor, o que é raro.
Os Wachowski fazem aqui somente o papel de mágicos diante de um público que se extasia com os truques. Prestidigitadores de primeira linha, tiram da câmera os coelhos que quiserem e arrematam toda a ilusão com certeiros, miraculosos golpes de montagem. Na verdade, são uma espécie de mascates contemporâneos, anunciando hoje a tecnologia que o mercado de engenhocas digitais vai vender amanhã.


