Um conto moral sobre a violência
Seco, duro, preciso e não raro demolidor. ''Marcas da Violência'' , o novo filme de David Cronemberg (''Videodrome'', ''A Mosca'', ''Gêmeos Mórbida Semelhança'', ''Crash''), chega hoje ao Brasil em lançamento nacional (confira a programação de cinema na página 2) depois de uma festejada trajetória internacional que incluiu passagens nos festivais de Cannes, Toronto e Sitges, na Espanha.
Baseado em novela gráfica aquela história em quadrinhos mais ambiciosa, com capa dura, edição de luxo e pretensões literárias adaptada para o cinema por Josh Olson, o filme é sem dúvida uma brilhante encenação de um conto moral sobre a violência. O mais curioso e o que confundiu muitos ''cronemberguianos'' foi, primeiro, que esta história surge disfarçada por uma aparência comercial e convencional. Depois, a eleição do elenco brilhante faz pensar em produção a serviço de estrelas em moda (neste caso Viggo Mortensen, o Aragorn de ''O Senhor dos Anéis''), o que resulta totalmente o oposto. E terceiro, o argumento linear de um aparente thriller obscuro, ou o relato de um melodrama sobre mudanças familiares, aquelas baseadas em mentiras ocultas no passado.
Mas isto tudo é somente uma máscara que o veterano autor canadense coloca sobre a textura de uma obra que, na hora da verdade, é tão mórbida, letal e inquietante como a maior parte de sua filmografia, aquela que se refere à degradação física do ser humano, ao enfrentamento entre homem e máquina, a dualidade corpo-mente, os desequilíbrios psicológicos profundos e as obsessões sexuais.
Tom Stall (Mortensen) é dono de um restaurante e vive uma existência feliz ao lado da família. A estabilidade vai se romper quando, depois que tentam roubar o restaurante, Tom mata em defesa própria dois criminosos perigosos. O fato se transforma em feito, e ele vira herói local e da mídia. E então aparece um estranho chamado Carl Fogarty (Ed Harris), que diz a Tom que ele tem uma conta pendente para acertar.
A pequena cidade do meio-oeste americano é transformada por Cronenmberg em microcosmo, em objeto de introspecção sobre os limites da violência, de suas raízes e da decomposição humana e social. Ali estão os distúrbios interiores que rompem a normalidade aparente e atira os personagens na vertigem do desconhecido. Cronemberg e isto fica muito claro não se converteu em diretor a serviço nem de gênero, nem de rótulo. Através deste pai de família e das ações que o envolvem assistimos a uma lição sobre o como o cinema pode e deve olhar o mundo contemporâneo, sempre de maneira profunda e reveladora. (C.E.L.J.)





