'Um Conto de Natal': de novo a família
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Prosseguindo (e encerrando) seu miniciclo temático sobre famílias disfuncionais e seus acertos de contas em tempos festivos, iniciado semana passada com um ''Casamento de Raquel'' muito influenciado por este cinema europeu, a sala alternativa da cidade apresenta a partir de hoje ''Um Conto de Natal'', um dos vencedores do Festival de Cannes de 2008 (confira a programação de cinema na página 2).
Os protagonistas de ''Um Conto de Natal'' são da família Vuillard, um casamento bem consumado apesar da diferença de idade do casal, ele Abel, ela Junon. Há três filhos, mais seus respectivos companheiros, três netos e um sobrinho órfão que foi criado como seu fosse o quarto filho. A relação dos irmãos entre si e com os cunhados algumas vezes chega ao ódio e à pancadaria. A mãe (Catherine Deneuve), de sua parte, não oculta a falta de afeto ao filho do meio, que aliás retribui na mesma moeda.
A mãe recebe um diagnóstico de câncer, que somente poderá ser curado por meio de um transplante de medula óssea. Assim, em torno do Natal e da expectativa e revelação de um possível doador, pela primeira vez em muitos anos a família vai se reunir. Mas a notícia da doença faz ressurgir a tragédia que deixou sequelas emocionais profundas: o primogênito, um quarto filho, morreu de câncer aos seis anos. Foi para tentar salvá-lo que Abel e Junon conceberam o filho do meio, mas a tentativa foi inútil. Agora é a vida da mãe que vai depender de um dos filhos.
O diretor Depleschin, 49 anos, não alonga seu tempo em explicitar os conflitos. Assim, crianças que morrem, câncer, demência, rebeldia adolescente ou rixa séria entre irmãos são entregues ao espectador logo de cara, nos primeiros quinze, vinte minutos de filme. Se uma Catherine Deneuve de saída diz a um filho: ''Nunca te quis bem. Você nasceu muito tarde para salvar seu irmão'', então todos os personagens deste drama temperado por um humor cáustico já podem passar um bom tempo juntos, porque já se confessaram o pior.
No elenco, alguns dos melhores atores da cena francesa atual. Além de La Deneuve, o talento de Mathieu Amalric, espécie de alter ego de Despleshin - vide ''Reis e Rainhas'', exibido há dois anos pelo mesmo Com-Tour. Preciosos também Jean-Paul Rousssilon, brilhando aos 78 como o marido Abel, e mais Emanuele Devos e Chiara Mastroianni, a bela filha de Deneuve e Marcello Mastroianni.


