UM CONTO
Me olho no espelho, o que vejo? Uma dondoca ruiva, gordinha, linda. E de mim por que não gosto? Me sinto desgraçada. Meu marido estragou a minha vida. Tudo me dá e não é o que eu quero. Por que tão infeliz, me diga. Sou vítima do cara perfeito, que me adora. Nada posso fazer senão chorar. Ele, sim, é o grande culpado.
Já o meu marido, um pirado em coca. No seu tesouro, é sagrado, ninguém pega. Minha mãe e irmãs em visita. Cismou que, em vez de guaraná, a uma delas servi coca. E, para enganá-lo, mudei a garrafa. Uma cena medonha. Podre de rico, já imaginou, minha família e eu chocadas. Tudo por uma simples coca.
E o meu, então? De manhã, acordamos, um não pode ver a cara do outro. Cada qual no seu banheiro, ainda bem. Ele almoça fora, volta de noite. E eu, bronzeada, joelho de fora, só para humilhar. Fica me olhando, folheio uma revista, a perna estendida na mesinha. Daí na cama vem pra cima de mim. Ai, que nojo. Uma transa lá entre ele e a minha perna, não estou nem aí. Ele me fez assim. Era uma boba, cuidar dos filhos, as camisas brancas do fulano. Agora, não. Sou uma bruxa, a culpa é dele. Agora que pague. E eu, eu tinha tão bom coração, lembra-se?





