Um contador de histórias
Francelino França
De Londrina
Um tio mentiroso pode causar grandes estragos numa família. Principalmente, se esse tio mente de forma fascinante. Uma espécie de genética ficcional acabou se manifestando num dos sobrinhos, Giba Pedroza, há 36 anos ouvindo histórias interessantes e há 10 anos ganhando a vida como contador de histórias.
Giba é criador do grupo paulistano Girasonhos, uma das poucas empresas lúdicas do País que ganha dinheiro contando histórias. O trio de sucesso é formado por Giba, Boi e Léo. A agenda lotada faz com que a trupe empresarial dos sonhos esteja sempre na estrada. Era uma vez... e assim viveram felizes para todo o sempre são expressões incansavelmente repetidas. Passando por Londrina, para uma série de performances diante de dezenas de crianças famintas por histórias, ele contou que o segredo nesse trabalho é respeitar o modo de contar história como um ritual.
A Girasonhos conta histórias para crianças pequenas e crianças crescidinhas, em grandes empresas, como uma fábrica de calçados, onde os operários ouvem histórias sobre seu universo, nos horários de intervalo. Os adultos se derretem todos, mesmo com uma resistência inicial. Como ele costuma dizer, a criança embarca com mais facilidade nas histórias. A relação é corporal, passa pela vivência da história. Como Giba gosta de contar histórias para meninos e meninas - grandes e pequenos -, ele conta as mesmas histórias, apenas com um diferencial na linguagem, com fusão de poesia e humor.
Giba Pedroza usa as histórias como meio de transformar a realidade. Na Fundação Franco Basaglia, em São Paulo, uma entidade que milita na luta antimanicomial, os contadores de histórias trabalham com loucos (os doentes mentais dizem que preferem ser chamados de loucos). Na comunhão de histórias entre loucos e lúdicos, o resultado é próximo ao universo infantil. Para eles, não há linha divisória entre o real e imaginário, conclui Giba.
Ele confessa que possui um fascínio pelos excluídos e pretende estender essa proposta de trabalho com meninos de ruas, para formá-los contadores de histórias e para as internas da Penitenciária Feminina de São Paulo. Nesse grupo, as presidiárias poderão contar histórias para os filhos das internas nos dias de visitas.
No rol de serviços oferecidos pela Girasonhos existem 12 espetáculos temáticos, abordando desde mitologia grega, conto de fadas, nutrição, lendas indígenas, entre outras. Atualmente, estão em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, com o espetáculo Era Uma Vez o Futuro, criado a partir da história que a escritora de livros infantis Ruth Rocha fez sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Para o mês de outubro, o trio Giba, Léo e Boi prepara um programa de rádio chamado Carretel de Invenções. Essa é uma proposta inédita dirigida para o público infantil, veiculada na Rádio Alvorada, em Londrina. Um sonho que a trupe acalenta, é o de equipar um ônibus e correr estradas do Brasil e América Latina para pesquisar e contar histórias, que é o que fazem de melhor.





