Quem bebeu numa das fontes mais expressivas do rock brasileiro com certeza já ouviu falar em Hanói Hanói, grupo criado em 1985 no Rio de Janeiro em torno da figura do baixista Arnaldo Brandão. E agora, o cantor e compositor ressurge com o CD ''Arnaldo Brandão Gravado Ao Vivo no Sérgio Porto'', pelo selo independente APB Música e distribído pela Tratore.
Consagrado pelo rock 'funkeado' da canção ''Totalmente demais'' lançada em 1986 e regravada por Caetano Veloso o disco apresenta os clássicos de sua carreira com algumas releituras, que acabam garantindo uma equilibrada miscelânea distante da obviedade.
Outro ponto alto do disco está na habilidade de Brandão com o violão eletrificado, adotado no lugar do baixo. Pedais, incursões eletrônicas e ritmos nordestinos contribuem para a nova sonoridade construída pelo artista.
Além da instrumentação e arranjos bem elaborados, duas participações especiais ganham destaque em seu segundo disco-solo: Lobão, com sua guitarra pesada, concede à introdução de ''Panamericana'' sonoridade que remete ao rock psicodélico dos anos 80; e Roberto Frejat entra com os vocais e violão em ''Inverno Europeu'', música que faz alusão às paixões e vícios de Brandão na Inglaterra em 1972. Entre as letras contundentes, ''Tá na Mídia'' abre o álbum com uma crítica à sociedade midiática e consumista. Numa versão mais malemolente, ''Totalmente Demais'' ganha participação da platéia, enquanto ''O Tempo não Pára'' um dos 'hinos' compostos por Brandão em parceria com Cazuza surge com levada Hendrixiana e um solo de violão conduzido pelo artista.
Aos 54 anos, Arnaldo Brandão volta em 2006 para os saudosistas dos anos 80 e apreciadores da boa safra de rock brasileiro. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à Folha2:

Como você define esse disco ao vivo?
É uma tentativa minha de sair dessa ''mansidão bovina'' (risos). Eu sou viciado em televisão e leituras, então eu acabo não fazendo mais nada. É uma tentativa de ir para o ataque, de reagir.

Você ficou ausente do cenário musical brasileiro há quanto tempo? Em 2002 você lançou um CD solo. E depois disso?

Em 2003 eu fiz três shows no Espaço Aeroporto um lugar bem bacana que tem aqui no Rio e os gravei para lançar num disco futuramente. Na verdade eu queria mesmo era deixar isso registrado e até lançar pela internet, mas aí eu comecei a organizar ''O Baú do Raul'', do qual fui diretor artístico, músico e produtor, e fui convidado para fazer a trilha sonora de um filme chamado ''1972'', do José Emilio Rondeau. Ele pediu umas músicas da 'Bolha' uma banda de rock que eu tinha nos anos 70 e nesse processo, descobri várias letras de música dessa época. Acabei reunindo, então, a velha banda de 30 anos atráse gravei um disco da Bolha, que não gravamos nos anos 70. Junto com o disco do Raul, com o disco da Bolha e esse material que eu já tinha gravado, antes de partir para o próximo disco, eu resolvi dar uma olhada no retrovisor rapidamente para poder acelerar e partir para a frente.

Paralelo a esse disco você lançou um selo. Tem mais algum nome lançado além de você?

Antes era AB Music, mas eu descobri que tinha um outro selo, de música gospel com esse nome, então agora se chama APB Music. Eu só fiz esse selo pra poder me lançar, porque eu ofereci o meus disco para algumas gravadoras, mas ninguém quis. Eu achei quer valia a pena gravar porque eu tenho algumas comunidades no Orkut que gostam muito do meu trabalho, então achei que deveria lançar e lancei!

Quem ouve Arnaldo Brandão atualmente?
Em Minas Gerais tem um público muito grande por causa do (grupo) Hanói, que fez muito sucesso em Belo Horizonte e em volta de BH. Tenho um público mais velho e mais novo; pais e filhos daquela época. Tem muita gente que vai nos shows e diz que trouxe também os filhos, que apresentou meus vinis a eles.

Quantas inéditas tem nesse disco?
Só uma. Na verdade, tem ''Panamericana'', uma música que eu tinha feito com o Lobão e o Tavinho, mas só o Lobão gravou. Então resolvi botar no show e no disco agora. Mas a única idédita é ''O Bicho'', que fala sobre essa questão da superexposição da mídia que às vezes transforma um assassino em herói. Me basei no ''Maníaco do Parque'', porque eu e o Tavinho descobrimos que esse assassino, de tanto aparecer nos jornais, acabou recebendo cartas de mulheres apaixonadas por ele, tentando entrar em contato com ele, namorá-lo. E como eu disse em ''Tá na Midia'', que fala ''Na verdade, na mentira, a realidade é estar na midia'', eu achei que tinha a ver e coloquei essa música inédita no disco.

Você também fala do amor cotidiano nesse trabalho, além da figura recorrente das mulheres...
Sim, porque de uma maneira geral, na época dos anos 80, o rock sempre falou muito mal das mulheres, como por exemplo ''eu tinha uma galinha que se chamava Marilu'', e no Hanói a gente tinha essa característica de falar bem das mulheres, de elogiar as mulheres, botar as mulheres lá em cima. E eu falo mais do amor às vezes pervertido , mas não aquele amor automático das canções de amor que a gente ouve no Brasil desde a época do samba-canção e, agora, do ''breganejo''.

E essa mistura de ritmos, como foi o processo de buscar novos arranjos?
Eu acho que o rock é o que mais me interessa, pois ritmicamente falando é a música mais transgressora de todas. Apesar de hoje estar meio estagnado, é o gênero que mais procura contestar e transgredir essa mansidão bovina. A gente vive hoje numa sociedade que nos direciona a não reagir, e o rock pra mim é uma música de reação, apesar de ser muito primitiva são dois ou três acordes. Agora eu uso outros ritmos mais como fetiche, como uma curtição, como uma mistura, porque afinal de contas eu sou brasileiro, e acredito que tem muitas coisas boas e interessantes nos rítmos brasileiros. Apesar de achar as letras todas fora o Tropicalismo de uma maneira geral muito conformista. Porque o rock, apesar de ser visto musicalmente de uma maneira não refinada, ele ajuda a adubar todos os ritmos musicais que existem no planeta

Quais são os próximos passos?
Eu estou com as música prontas e só falta pôr as letras para o próximo disco, e vai continuar falando sobre essa vontade de reagir contra esse conformismo que a gente vive e que eu vivo muitas vezes também. Acho que é uma característica de todas sociedades, mas antigamente, no caso da música, existia um público consumidor que queria mais conteúdo. Depois dos anos 80 houve uma busca pela forma. Dos anos 90 para cá, eu sinto que é mais repetição do que já foi feito, um simulacro da realidade, pois está tudo muito estilhaçado, formatado. As pessoas se sentem inseguras e buscam segurança nas coisas que elas já conhecem. É uma situação estranha que não me agrada muito.

Serviço
- CD ''Arnaldo Brandão Gravado Ao Vivo no Sérgio Porto'', (APB Música), distribído pela Tratore. Preço sugerido R$ 15,00 (mais taxa de entrega). O disco pode ser adquirido pelo site do artista: www.arnaldobrandao.com.br

mockup