Um construtor de perfis
Nelson Sato
De Londrina
A reportagem literária, uma das glórias do jornalismo cultural, parece definhar inapelavelmente nas páginas da grande imprensa.
Por uma série de motivos, que inclui desde a supressão de matérias reflexivas nas linhas editoriais até a carência de mão-de-obra especializada, as pautas dos jornais foram aos poucos banindo os célebres perfis de escritores.
O jornalista José Castello recupera esse modelo de narrativa curta no livro Inventário das Sombras (editora Record), onde com uma fluidez invejável compõe retratos de 13 escritores, um jornalista e um artista plástico - todos entrevistados por ele ao longo dos 20 anos em que emprestou seu talento para publicações como Veja, Jornal do Brasil, Opinião e O Globo.
Castello reconstitui as circunstâncias de alguns dos encontros, dando asas à própria veia de ficcionista e enriquecendo-as com análises das obras dos entrevistados. O elenco de eleitos traz Clarice Lispector, João Antonio, Caio Fernando Abreu, Alain Robbe-Grillet, Hilda Hilst, Manoel de Barros, Nelson Rodrigues, Adolfo Bioy Casares, Raduan Nassar, Ana Cristina César, José Saramago, Dalton Trevisan, José Cardoso Pires, João Rath e Arthur Bispo do Rosário.
O resultado é fascinante, revelando-se memorável em alguns textos, como os dedicados a Clarice Lispector e a Nelson Rodrigues. Ao falar da escritora, o autor lembra da situação patética em que foi lançado na ocasião em que foi entrevistá-la em 1974, quando dava seus primeiros passos como jornalista. Resumo da cena: já sentados, o jovem repórter retira um gravador da pasta para registrar a conversa e o coloca sobre a mesa.
Subitamente, a autora de Laços de Família começa a gritar e andar de braços estirados pela sala à procura de uma porta. O entrevistador, sem entender o chilique, também se desespera. Uma mulher aparece na sala e a abraça por longo tempo, até que Clarice se controla e passa a apontar o gravador, o motivo do pânico. Após alguns minutos, ela pega o gravador com as pontas dos dedos e o tranca no armário do quarto para só devolvê-lo na hora da despedida.
Também pitorescos, mas cruelmente reveladores, eram os telefonemas que Nelson Rodrigues disparava para Castello no início dos anos 80, ano em que ele viria a morrer. O autor conta como o dramaturgo, vivendo sob o estigma do escândalo e do reacionarismo, fez cair todos os véus que escondiam sua delicadeza. Depois de conceder-lhe uma entrevista, Nelson passou a ligar insistentemente para o jornalista várias vezes ao dia perguntando-lhe coisas triviais como o que tinha comido no café da manhã ou detendo-se em considerações sobre o tempo, a baixa qualidade dos programas de TV ou as vantagens de ter nascido no subúrbio.
Incomodado na época, Castello confessa que deixou de atender às ligações, com a ajuda de dois amigos com os quais dividia um apartamento. Mais tarde, conta, através de um amigo chegado ao meio teatral, soube que ele não fazia isso apenas comigo, mas que havia outras vítimas. Que ele sempre tinha dois ou três eleitos de plantão, pessoas que escolhia como seus preferidos temporários e que eram, na verdade, personagens tampões de sua imensa solidão.
Mas além dessas histórias, Inventário das Sombras contém também finas reflexões acerca das obras dos personagens em foco e do mundo da literatura. Castello nota que a imagem do escritor contemporâneo, exposta na mídia, exclui as zonas sombrias em que eles travam suas verdadeiras batalhas. A figura que sobressai, segundo ele, é a do sujeito glamouroso, sempre convidado a conferências e seminários internacionais e espécie de reserva de sabedoria com respostas para todas as questões.
Mas, anota, ao contrário do que sua imagem pública nos faz crer, escritores habitam em geral um mundo em ruínas - e é para sobreviver em meio a escombros que, sem outro amparo, eles se põem a escrever. Foi para iluminar essas fronteiras nevoentas que José Castello escreveu este belo livro.No livro Inventário das Sombras, José Castello traça perfis primorosos de 13 escritores
ReproduçãoClarice Lispector revelou um lado patético a José Castello ao entrar em pânico por causa de um gravadorReproduçãoNelson Rodrigues escolheu Castello como vítima de uma de suas paranóias: perturbar pessoas pelo telefone





