UM COLECIONADOR DE SUCESSOS
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de junho de 2000
Rodrigo Teixeira TV Press 
Mulher engravida para tentar salvar a filha. Manoel Carlos leu esta manchete num jornal carioca no dia 17 de fevereiro de 1990. A notícia serviu como uma espécie de fagulha que iluminou o autor para escrever Laços de Família. Ao abordar o tema de transplante de órgãos na nova novela das oito, Manoel repete a história verídica de Mary Ayala, californiana de 43 anos que ficou grávida para que o bebê servisse como doador de medula óssea à filha adolescente, que tinha leucemia. Exatamente a mesma história da personagem Helena, protagonista vivida por Vera Fischer, e da filha Camila, papel de Carolina Dieckmann. Sempre me inspirei em notícias de jornal, além das minhas próprias experiências. É uma mania, assume o autor de 67 anos.
Com ar tranquilo e sotaque paulistano, Manoel Carlos tem um motivo a mais para se empolgar com o processo de criação de Laços de Família: a novela é ambientada no Leblon, bairro carioca da Zona Sul em que o próprio autor reside. Manoel já tornou famoso o hábito de ouvir os conselhos de conhecidos do bairro, na padaria, farmácia, restaurante e até mesmo os atendentes dos McDonalds. É um termômetro que funciona para mim, garante Manoel, que trocou definitivamente São Paulo pelo Rio em 1970. Vim dirigir o primeiro show do Chico Buarque no Canecão e nunca mais voltei, lembra o autor.
Completando 50 anos de televisão em 2001, Manoel escreve ao mesmo tempo em que resolve problemas familiares, como levar o filho de oito anos para cortar o cabelo ou forçá-lo a tomar banho. Apreciador de música clássica, em seu escritório pode-se ver pastas em que guarda recortes sobre diversos assuntos. Em frente à sua escrivaninha, fica um cartaz grande em que Manoel anota os comandos para escrever no computador os capítulos e papéis de todo tipo. Na estante, um monitor onde pode-se ver os diversos cômodos do apartamento. Estigmatizado como um ótimo criador de personagens femininos, ele reconhece que é pago para dar audiência. Novela das oito que não dá Ibope é uma tragédia na empresa, ressalta.
Você já tinha a idéia de Laços de Família desde 1990. A sinopse mudou neste período?
Basicamente continuou a mesma, com o foco central na questão do transplante de medula. Também fiquei com a sinopse de Por Amor na gaveta por 17 anos. Assim que encerrei Por Amor, decidi escrever uma sinopse baseada na idéia do transplante de medula, mais por comodismo. Se a Globo me chamasse, teria uma novela adiantada. Mas não imaginei que fosse tão rápido, pois faz dois anos que Por Amor acabou e pensei que escreveria somente em 2001.
Desde quando você tem o hábito de ler jornais à procura de ganchos para novas histórias?
Sempre fiz isso. Tenho dezenas de caixas com notícias antigas. Recorto tudo que leio e me inspira de alguma maneira. A idéia de Laços de Família veio ao ler o caso da mulher nos Estados Unidos que engravidou outra vez para tentar salvar uma filha que precisava de transplante de medula. Ela salvou esta filha. Um pouco antes de 90, um episódio idêntico aconteceu na Itália. Na hora pensei: isto daria uma boa história. Mas estava escrevendo novelas para fora do país. Quando voltei à Globo, em 1991, escrevi duas novelas das seis e o horário não suportava abordar o tema de transplante. Além do mais, o Boni e o Mauro Lúcio queriam Por Amor às 20 horas. Então só pude me dedicar ao tema agora.
Por que você gosta de usar nas tramas assuntos médicos?
São de interesse geral. Quando publicaram que iria fazer uma história envolvendo transplantes apareceu uma enxurrada de reportagens com este tema. Inclusive o Narciso, jogador do Santos, apareceu bastante depois disso. Além da notícia do jornal, também teve um casal de amigos que perdeu um filho de 17 anos de leucemia, ainda que tivesse feito um transplante de medula do próprio irmão de 18 anos. É um assunto que envolve uma grande carga de emoção e não é simplesmente um tema científico. Na leucemia, você pode ter a cura através de uma outra pessoa que se proponha a ser doador para o transplante. E é justamente esta possibilidade que quero discutir.
A sua intenção é estimular um debate na sociedade?
É um gancho para a história, mas sei que interessa à sociedade. A novela não tem que educar necessariamente e sim não deseducar. Não vou ficar fazendo novela tipo não cuspa no chão. Não gosto do estilo de aconselhar. Mas a postura dos personagens é importante como referência para o público. Nas minhas novelas, por exemplo, pouca gente fuma, a não ser que tenha a ver com a história do personagem.
Houve uma disputa entre a Globo e a Record para usar o nome Laços de Família. Você sempre quis este título?
Tinha dois nomes: Laços de Família e Mulheres Apaixonadas. A emissora preferiu Laços de Família. Mas o nome vazou antes da Globo registrar. Fiquei tranquilo porque o nome de uma novela não é fundamental. A Record é que fez um alvoroço. Acho que queriam se beneficiar com a promoção. Mas o nosso protocolo é anterior ao deles e ficamos com o nome.
Você pensa primeiro no ator ou no personagem na hora de criar uma novela?
Sou um autor que participo integralmente da escalação da novela. Não há papel entregue sem que tenha escolhido ou aceito a indicação. Tenho poder de veto. Até porque é impossível escrever para quem você não gosta ou não quer. Um diretor pode dirigir ou mandar o auxiliar. Mas o autor não. Às vezes não é nem o problema dele ser um mau ator. Mas eu não acreditar nele para o papel que tenho.
E quando isso acontece no meio de uma novela?
É muito raro. Normalmente alguns esvaziamentos durante a história não é nem por causa do ator, mas porque o papel não funcionou. E a gente vai esvaziando.
Você não tem receio de ser acusado de usar o Flávio Silvino como isca de audiência?
Não, porque o Flávio pede para trabalhar e não está sendo forçado. Também não é uma pessoa que estamos transformando em um ator, pois ele já é. O que não pode é fingir que o Flávio é normal. Não estou biografando. Na trama, ele sofreu um acidente, estava dirigindo sem cinto de segurança e bateu em um caminhão. A mãe dele morre na hora. Na vida real, ele estava com um irmão, que não sofreu nada. Mas só decidi realmente colocar o Flávio na trama quando tive certeza que o Tony iria fazer o pai. Se não fosse o Tony, não poria o Flávio na novela.
Mas esta mistura entre realidade e ficção ajuda a atrair mais ainda o público...
Talvez. Muitas pessoas acham que tem dados biográficos da Vera Fischer na história. Mas para mim não tem importância que achem isso. Pensei no personagem da Vera desde o início. Fiz para ela. Precisava de uma atriz que interessasse a homens de qualquer idade. Ou seja, só a Vera poderia fazer este papel.
Você não fica preocupado com a instabilidade emocional que a Vera já apresentou em produções anteriores?
Jamais. A Vera é uma excelente profissional. O que aconteceu em Pátria Minha, dela sair no meio, é porque estava vivendo uma crise e qualquer pessoa poderia ter feito o mesmo. Na verdade, ela é meio vítima. Não há um dia que não tenha notícias no jornal, ou porque ela está feliz ou infeliz. Se alguém teve dúvidas na emissora, não falou para mim.
Como você lida com a questão do Ibope?
A pressão vem de mim mesmo. Sou pago para dar Ibope. A Globo me incumbe de fazer uma novela das oito contando com um grande sucesso. Se não fizer, não estou cumprindo parte do meu contrato. Não está escrito. Está implícito. O investimento que a Globo faz é grande e o retorno tem de ser certo. Uma novela das oito que não dá certo é uma tragédia dentro da empresa. Mas nunca alterei uma trama por Ibope.
Você gosta dos grupos de estudos que avaliam as produções?
Nunca li ou participei. Sei do resultado, mas alguém traz para mim. Prefiro o meu método antigo de andar ouvindo meus conhecidos no Leblon. Isto é que me interessa. Conheço todos no Leblon. Tenho alguns palpiteiros fixos nas bancas de jornais, padaria, farmácia, papelaria, e até o pessoal do McDonalds. Este é o Ibope fundamental para mim.


