A atividade do escritor Mário de Andrade como colecionador não se limitou a guardar os inúmeros retratos que os maiores nomes do modernismo brasileiro - de Anita Malfatti a Tarsila do Amaral - pintaram dele. O autor de ''Macunaíma, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 22, foi também um empolgado colecionador de arte religiosa e artesanato popular, recolhendo objetos de Norte a Sul do País durante suas andanças como ''turista aprendiz'' e pesquisador do folclore brasileiro. É justamente essa coleção inédita, formada entre 1919 e 1945, que o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP) está exibindo em sua sede, na Cidade Universitária, até 25 de janeiro de 2005.
São 236 objetos entre imagens religiosas (católicas e afro-brasileiras), instrumentos musicais e indumentária indígena, reproduzidos no luxuoso catálogo de 448 páginas publicado em regime de co-edição pela Edusp e Imprensa Oficial, o penúltimo da coleção de 12 volumes ''Uspiana Brasil 500 Anos'', lançada há quatro anos. Todo cuidado gráfico não rivaliza com a exposição desses objetos, recolhidos com muito critério por Mário e amigos pesquisadores. É a primeira vez que o público vai ver o conjunto dessas peças que integram o acervo do escritor, adquirido pela USP em 1968 e tombado pelo Iphan em 1995.
A mostra, que tem curadoria da professora Marta Rossetti Batista e projeto museográfico de Marcos Moraes. Mais que objetos, as peças em exposição revelam, segundo a curadora, um ambicioso projeto de estudo sobre as características do povo brasileiro, animado pela influência da antropóloga Dina Lévi-Strauss, que chegou ao Brasil com o marido Claude nos anos 30 e tornou-se amiga do escritor brasileiro. Como diretor do Departamento de Cultura do Município, embrião da atual Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Mário convidou-a para cuidar da área de etnologia e folclore.
Uma das grandes descobertas - ou autodescoberta - do autor foi a arte religiosa de origem afro, que o levou a um terreiro da Paraíba, onde teve o corpo ''fechado'' por uma mãe de santo, em 1927. Amigo do compositor Pixinguinha, um iniciado nos mistérios do candomblé, Mário era, então, apenas o neófito tímido que escapara da congregação mariana para ver o que se passava no reino dos orixás. Um ano depois, em ''Macunaíma'' (1928), ele descreve uma cena de macumba destinada a convencer qualquer turista aprendiz, após ter recolhido artefatos indígenas na Amazônia e objetos relacionados às danças populares no Nordeste.

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