Um clip sobre o Vale da Morte
ReproduçãoPatricia Arquette e Bill Pullman, em A Estrada PerdidaÉ tarefa dolorosa e complicada recomendar mais este delírio estético-psicanalítico assinado por David Blue Velvet Lynch. A redução para vídeo não significa necessariamente - aliás, absolutamente - que o filme vai fazer mais sentido do que na tela grande do cinemascope, embora os recursos do VCR agucem a curiosidade do espectador para buscar certos replay ou slow-motion . Sem resultado prático, é bom que se antecipe. Bizarro, estruturado quase todo em elipses, com uma narrativa deliberadamente desconstruída, Lost Highway é a visão muitíssimo pessoal de uma América de pesadelo, que não está em nenhum roteiro turístico. O universo linchiano, que o grande público conheceu em detalhes desconcertantes durante a série televisiva Twin Peaks( e se apegou à fórmula global Quem Matou Laura Palmer ? para melhor suportar todos os fantasmas freudianos que o diretor tirou do armário), é todo intuido cerebralmente a partir da posição sectária e autoral de um voyeur.
Não há dúvida: estamos diante de uma espécie de clip sobre o vale da Morte, orquestrado por um maestro esquizofrênico que busca com sofreguidão o que muitos cineastas já tentaram, em vão: atingir a quinta-êssencia da abstração. Alucinatório e provocante, com uma proposta bem definida: não ter proposta definida. Lógica, definitivamente, não é o território deste doentio - e estimulante, por que não ? - David Lynch. Para maiores explicações terapêuticas, convém aguardar as memórias de Isabela Rossellini, que foi casada com o diretor e deve saber, entre outros delirantes segredos, o que representa aquele anão de fala enrolada de Twin Peaks, ou a orelha na grama entre formigas em Veludo Azul.
(CELJ)





