Um clássico latino é atração da Semana do Cinema em SP
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de julho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 13 (AE) - Um clássico do cinema latino-americano é a atração de amanhã (14) da Semana do Cinema: Brasil e Independentes, promovida pelo Espaço Unibanco, em São Paulo. Às 20 horas passa "La Hora de los Hornos", longa documental de Fernando Solanas, um exemplar típico do cinema engajado dos anos 60. Típico, no bom sentido do termo, porque inconfundível. É possível que em nenhuma outra década do século arte e política tenham andado de mãos tão dadas como naquela. La "Hora de los Hornos" é assim. Um filme-colagem de quatro horas
que visa a sacudir o espectador de sua cadeira e despertá-lo para a intervenção política. Nesse sentido, era uma "obra prática", em 1968, quando entrou em cartaz.
Foi pensado como instrumento político ativo e sua difusão deveria dar-se em circuito paralelo, como partidos de oposição, organizações estudantis e sindicais. Era uma peça artística, mas deveria fazer parte das relações de força naquele tempo insurgente. Propunha o que Solanas e seu parceiro, Octavio Getino, chamavam de tercer cine. Uma terceira via para o cinema, um cinema que refletisse o real concreto da América Latina. E propusesse a ela um caminho de descolonização - outro termo que se usava naquele tempo. Como vê-lo hoje? Talvez como excelente documento de época. Talvez mais do que isso, se for possível entender que as formas históricas evoluem rapidamente, mas estruturas de dominação parecem muito mais duráveis.
Outros quatro longas-metragens também poderão ser vistos amanhã na mostra dos independentes: "Traição", de Cláudio Torres, José Henrique Fontes e Arthur Fontes (14 h); "Denise Está Chamando", de Hal Salwen (16 h); "Filme Demência", de Carlos Reichenbach (18 h), e "O Pequeno Tony", de Alex van Warmerdam (22 h). "Traição" é uma (em geral) feliz adaptação de três episódios de "A Vida como Ela É", de Nelson Rodrigues. "Denise Está Chamando" fala de um aparente paradoxo moderno: o isolamento das pessoas no auge da era das comunicações. "Filme Demência" é dos mais interessantes trabalhos de Carlos Reichenbach, uma interpretação muito pessoal do "Fausto", de Goethe.
O holandês "O Pequeno Tony" é uma das boas novidades trazidas pela mostra. Conta uma história incomum, a de um fazendeiro analfabeto, dominado por sua mulher. Um dia, esta arranja uma bela professora para ensinar o marido a ler. Quando o inevitável acontece, o espectador percebe que não está diante de uma história convencional. Ao contrário, é a mulher traída quem aparentemente estimula o marido a manter um caso com a professora. O humor negro não disfarça a relação simbiótica do casal. Uma boa pedida - principalmente para quem tem paladar cinematográfico chegado ao exótico. Serviço - Semana do Cinema: Brasil e Independentes. Às 14, 16, 18, 20 e 22 horas. R$ 4,00. Espaço Unibanco - Sala 1. Rua Augusta, 1.475, tel. 288-6780.


