Um clássico incomparável
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domingo, 06 de janeiro de 2002
Rodrigo Souza Grota 
Há filmes que entram para a história por sua qualidade estética. Outros são lembrados pelas lendas que rondaram as filmagens. Apenas um filme atende a esses dois requisitos com extrema competência. Eis a obra máxima do dinamarquês Carl Theodor Dreyer, o autor de A Paixão de Joana DArc, que agora sai em DVD pela Continental Home Video.
Você pode até argumentar - mas essa história já foi contada por muitos cineastas... E foi mesmo. Uma lista selecta de diretores inclui grandes nomes como George Meliés, Cecil B. de Mille, Victor Fleming, Uciky, Robert Bresson e Roberto Rosselini. Mais recentemente houve a versão pós-moderna de Luc Besson. Mas nenhuma dessas adaptações pode ser comparada ao trabalho que Dreyer realizou na França em 1928. Havia dois diferenciais - o diretor e a atriz Falconetti.
Dreyer não era um criador comum. Conhecido como o cineasta do interior, realizou apenas doze longa-metragens entre 1919 e 1965. Nascido em Copenhague em 1889, aos 20 anos já dirigia O presidente, após ter elaborado roteiros e legendas para filmes mudos. A essa primeira obra, seguiram Páginas do livro do satã (20), Amai-vos uns aos outros (22), Era uma vez (22), Mikael (24), Você deve respeitar sua mulher (25), A Noiva de Glomsdal (26), O Vampiro (32), Dias de Ira (34), Dois Seres (44), Ordet (54) e Gertrud (65). Desse repertório, apenas Dias de Ira, O Vampiro e Páginas do livro de satã estão disponíveis no mercado de vídeo brasileiro.
Pelos títulos dos filmes percebe-se a sua influência religiosa. Daí surge toda a devoção na obra de Dreyer em busca de uma pureza intacta. Essa pureza ele encontrou na história de Joana de Domrémy, uma jovem que na França de 1431 se dizia enviada por Deus. O roteiro elaborado pelo romancista Joseph Delteil se baseia nas minutas verdadeiras do processo contra Joana. A única adaptação foi restringir o longo processo a um só dia de julgamento.
Os 82 minutos do preto-e-branco mais esplendoroso do cinema foram captados pela câmera do francês Rudolph Maté, o mesmo que nove anos antes havia trabalhado com o médico Robert Wiene em O gabinete do dr. Caligari, obra inicial do expressionismo alemão.
O objetivo de Dreyer era aproximar-se da alma de Joana. E para isso ele precisava de um rosto. Uma face que sintetizasse toda a angústia de uma pureza posta em xeque. Aqui entra Falconetti, atriz de teatro que nunca havia trabalhado em cinema.
Os closes, o branco do cenário, os olhares de Joana, tudo evoca um clima de inquisição. Como se Joana simbolizasse o martírio de toda uma humanidade contraposta a suas crenças religiosas. O crítico francês André Bazin, fundador da Cahiers du Cinéma, evidenciou, em um texto de 1952, o principal mérito do cineasta: Dreyer é talvez, com Eisenstein, o único cineasta cuja obra iguala a dignidade, a nobreza, a poderosa elegância das obras-primas da pintura, não só porque nelas se inspira como também, mais essencialmente, porque redescobre os seus segredos em profundezas estéticas comparáveis. Bazin chega a apontar que Dreyer conseguiu o impossível - o fim da interpretação: O ator emprega seu rosto para expressar sentimentos, porém Dreyer exigiu de seus intérpretes outra coisa a mais que a interpretação. Vista de tão perto em grande close, a máscara da interpretação cai... O paradoxo fecundo, o ensinamento inesgotável desse filme é que, nele, a extrema purificação espiritual se entrega ao realismo mais escrupuloso sob o microscópio da câmara.
A atriz Falconetti, que nunca mais trabalhou em filmes após a experiência com Dreyer, é o outro fator que atribui a A Paixão de Joana DArc um carácter magnífico. Falconetti não é um ícone ligado ao belo, e sim, à pureza. Seu rosto transparece uma sinceridade rara. Lágrimas coerentes. Um olhar generoso. Quando esteve no Rio de Janeiro em 1942, a atriz conversou com o então crítico de cinema Vinícius de Moraes. Que aliás a apresentou a Orson Welles, que aqui estava a filmar o inacabado Its All True.
Durante a conversa, Falconetti confirmou a impiedosidade do dinamarquês: Foram cinco meses de tortura. Às vezes brigávamos. Perguntava-lhe: Mas monsieur Dreyer, se o senhor me deixasse um pouco de liberdade para a ação, eu poderia dar alguma coisa de mim mesma. Ele recusava-se formalmente. Obrigava-me à maior passividade. Filmava coberto por anteparos, para que ninguém me visse e nada me distraísse a atenção do que fazia. Acabada a cena, recolhia-me a uma casa de campo a que só ele tinha ingresso. Falava-me constantemente, incutindo-me a idéia da obra que queria realizar, Era-lhe uma idéia fixa.
Apesar de boa parte da crítica ter elogiado o filme, alguns jornalistas acharam o ritmo da montagem muito lento. Bazin por exemplo acredita que Dreyer teria melhor resultado se pudesse ter utilizado o som no filme. Falconetti, entretanto, compreendeu qual o verdadeiro objetivo do cineasta: Só mais tarde compreendi que não podia ser de outro modo, que tratava-se de uma visão, de um instante em Cinema.
A Paixão de Joana DArc (La Passion de Jeanne DArc, FRA, 1928, 82 minutos). Preço à vista: R$ 37,50. Continental Home Video: (11) 287-2696/283-5255.


