As mil almas de Shakespeare vibraram como nunca nos anos 90. Em nenhuma outra época o bardo inglês foi tão festejado em peças, filmes, livros, vídeos, palestras, polêmicas e tudo o mais que pudesse acolher seu perene legado.
Não por acaso, a temida crítica teatral carioca Barbara Heliodora falaria ontem em Curitiba como convidada do curso ‘‘Shakespeare, Nosso Contemporâneo’’, que está sendo realizado no Solar do Rosário. O fenômeno é notável. É como se seus seguidores tudo fizessem para devolvê-lo ao convívio dos joões e marias das ruas, sequestrando-o das hostes eruditas em que ficou retido ao longo dos séculos.
Como não cansam de apregoar os estudiosos, Shakespeare (1564-1616) foi tão acessível a seu tempo quanto os astros pop de hoje em dia, guardadas as devidas proporções de talento e alcance. O volume de bolso Shakespeare de A a Z - Livro das Citações, lançamento da L&PM editores, é mais uma peça dessa estridente ‘‘conspiração’’ para popularizar o autor do ‘‘ser ou não ser’’.
O livrinho, organizado em verbetes por Sérgio Faraco, reúne frases de sua dramaturgia extraídas de 37 peças escritas entre os anos 1590 e 1613. Inclui desde as mais citadas até aquelas pouco conhecidas, igualmente lapidares e divertidas. Assim, alternam-se frases famosas como ‘‘Um Cavalo! Um Cavalo! Meu reino por um Cavalo!’’ (de A tragédia do Rei Ricardo III), ‘‘Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia’’ (Hamlet) e ‘‘Nem Tudo que Reluz é Ouro’’ (O Mercador de Veneza) e aquelas menos difundidas como ‘‘As queixas venenosas de uma esposa ciumenta são de efeito mais nocivo do que dentada de cachorro louco’’ (A Comédia dos Erros), ‘‘Uma boa forca livra de um mau casamento’’ (Noite de Reis) e ‘‘A mulher que não sabe pôr a culpa no marido por suas próprias faltas, não deve amamentar o filho, na certeza de criar um palerma’’ (Como Gostais).
Sérgio Faraco, o autor da antologia, lembra no texto introdutório que a obra de Shakespeare ganhou excelentes traduções no país assinadas por nomes como Millôr Fernandes, Bárbara Heliodora, Cunha Medeiros e Oscar Mendes. Sua escolha, porém, recaiu sobre as versões que Carlos Alberto Nunes fez para a editora Melhoramentos dada sua popularidade e abrangência.
Faraco avisa ainda que as citações compiladas não retratam, necessariamente, o pensamento do dramaturgo de Stratford-on-Avon. ‘‘São vozes das criaturas, não do criador’’ - alerta. Shakespeare de A a Z faz parte da coleção L&PM Pocket. Está à venda a R$ 5,00.

Reprodução‘‘Vênus e Adônis’’, de TicianoFRASES
O que Shakespeare disse sobre o amor:
‘‘Quem no amor respeita amigos?’’ (Os dois Cavalheiros de Verona - 1594/1595)
‘‘O amor não vê com os olhos, vê com a mente; por isso é alado, é cego e tão potente.’’ (Sonho de Uma Noite de Verão - 1595/1596)
‘‘Se não te lembram as menores tolices que o amor te levou a fazer, é que jamais amaste.’’( Como Gostais - 1599/1600)
‘‘Um grande amor nos sustos se confirma.’’ (Hamlet - 1600/1601)
‘‘Ela me amou à vista dos perigos por que passei, e muito amor lhe tive, por ter se revelado compassiva.’’ (Otelo - 1604/1605)
‘‘Os motivos do amor não têm motivo.’’ (Cimbelino - 1609/1610)
O que Shakespeare disse sobre as mulheres:
‘‘Mulher irritada é como fonte remexida: limbosa, repulsiva, privada de beleza: e assim mantendo-se, não há ninguém, por mais que tenha sede, que se atreva a encostar os lábios nela.’’ (A Megera Domada - 1593-1594)
‘‘As damas dizem não por modéstia, na esperança de que o interlocutor em sim o mude.’’ (Os dois Cavalheiros de Verona - 1594/1595)
‘‘Com que facilidade os impostores impromem suas formas insinuantes no coração de cera das mulheres.’’ (Noite de Reis - 1599/1600)
‘‘As mulheres que a Fortuna faz bonitas, raramente faz honestas, e as que faz honestas, deixa bem pouco atraentes.’’ (Como Gostais - 1599-1600)
‘‘A melhor hora para seduzir uma mulher é quando ela briga com o marido.’’ (Coriolano - 1607/1608)

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