Um clássico e sedutor filme 'noir'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de outubro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
A palavra ''clássico'', nos últimos tempos tão vilipendiada pelo uso reiterado e impróprio, recobra aqui sua significação mais nobre. E isto graças a um jovem diretor inglês egresso do teatro e que há apenas três anos surpreendia toda a comunidade cinematográfica com uma sutil e dilacerante radiografia da sociedade dos Estados Unidos, o original, aclamado, recompensado e hoje célebre ''Beleza Americana''. Depois de dissecar a sacrossanta estrutura familiar do ''american way of life'' naquela estréia em 1999, Sam Mendes redireciona agora o foco de seu interesse para o filme de gênero, embora sem procurar redefinições ou pós-modernizações. Em ''Estrada para a Perdição'', a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), ele volta às origens do gangster movie com todos os detalhes a rigor. Mas não se iludam: embora o deslocamento no tempo, a transformação da geografia e a motivação dos personagens, ''Road to Perdition'' impõe a visão de um criador fascinado pelo tema da filiação que também assombrava os principais protagonistas de ''American Beauty''.
Rico de atmosferas penetrantes e preciosismos de ''mise-en-scène'' e de interpretação, ''Estrada para a Perdição'' impressiona como Mendes, um pouco à maneira de Coppola em ''O Poderoso Chefão'', faz emergir a humanidade de seus personagens sem jamais asfixiá-los no sentimentalismo ou em ''pathos'' ®MDBO¯®MDNM¯de baixa categoria.
A intriga se articula a partir de laços que ligam pais e filhos, evoluindo dentro e ao redor de uma organização criminosa. O local é Chicago, o ano é 1931, o mando é de Alfonso Capone. A Grande Depressão parece acenturar os rigores do inverno. Michael Sullivan (Tom Hanks) é imigrante de origem irlandesa, católico e bom pai de seus filhos, Michael (Tyler Hoechilin) e Peter (Liam Aiken). Ele faz questão de que sua vida privada não interfira em sua vida profissional. Michael também é assassino, gatilho letal de inteira confiança, braço direito da ''família'' liderada pelo patriarca John Rooney (Paul Newman), que o considera quase como filho, embora já tenha um de sangue, o invejoso e ambicioso Connor (Daniel Craig). Por conta do péssimo caráter, Connor acaba assassinando a mulher (Jennifer Jason Leigh) e o filho caçula de Michael. Para não ser morto também, e com a vingança como objetivo, este foge com o primogênito. Os dois caem na estrada, agora ameaçados por um assassino profissional (Jude Law) contratado pelo ''capo'' John Rooney. Para o jovem Michael Jr., esta fuga com o pai vai representar um doloroso mas afinal libertário rito de passagem repleto de descobertas.
Baseado numa novela em quadrinhos escrita em 1998 por Max Allan Collins e desenhada por Richard Piers Collins, o roteiro de David Self (''13 Dias'') se atém principalmente à evolução psicológica dos personagens encurralados num território caracterizado por súbitas explosões de violência. É uma história de crime e castigo, inserida num triplo relacionamento pai-filho, dois sanguíneos, um por afinidade. Em cena velhos e sedutores gangsters que tocam piano juntos, vão à igreja, comungam, dizem a cada momento ''que Deus me ajude''. Em cena, animados funerais de criminosos, a permanente semi-obscuridade nos ambientes, a chuva noturna, os assaltos a banco, a testemunha involuntária, a valise com a metralhadora desmontada, a estrada, a planície, o ceú, a luz, a grandiosidade da América captada entre nostalgia, ferocidade, amor e medo. A paisagem mítica, entre perdição e salvação. Real e simbólica, a longa viagem rumo à Perdição.
Suntuoso e austero, ''Road to Perdition'' é uma alegoria com trânsito bíblico e proporções de tragédia grega. O tema é o do crime e castigo, da inveja e da rivalidade, da violência e da vingança. Apesar das melhores intenções de Sullivan, a profissão acaba invadindo sua casa e sua família. O filme não deixa de ser um paradoxo: simples e linear no desenvolvimento do argumento, complexo enquanto conteúdo. Referência óbvia, mas não indigesta, é a saga de ''O Poderoso Chefão''. Há outras, mais ou menos perceptíveis o Sergio Leone dos westerns barrocos e de ''Era Uma Vez na América'', e alguma ressonância de ''Bonnie and Clyde''.
Uma das muitas grandes virtudes está no talento que resulta na construção dos planos, fascinante combinação entre engenharia e arquitetura. Méritos da destreza de Mendes com a câmera e do diretor de fotografia Conrad L. Hall: a eleição dos enquadramentos, as tonalidades cromáticas, a direção de arte, tudo parece minuciosamente planejado, proporcionando uma estética que arrebata sem ser estetizante, vale dizer, Mendes constrói uma forma exemplar e a utiliza funcionalmente, de maneira clara e transparente para visualizar o claro-escuro que é regra geral nas relações entre os personagens.
Lidando com um personagem até então inédito em sua carreira de ''bonzinhos'', Tom Hanks mostra que sabe onde pisa e constrói um Michael lacônico, obscuro, duro e ao mesmo tempo vulnerável. Já Paul Newman utiliza prodigiosamente aquela sua autoridade natural para deixar perceptíveis, na medida exata, as fissuras psicológicas e emocionais de um personagem fruto de um processo criminoso atávico. Olho atento em Jude Law, um primor em concentração de amoral perversidade.


