O American Film Institute divulgou recentemente a lista dos cem melhores filmes americanos de todos os tempos. ‘‘Cidadão Kane’’ ficou em primeiro lugar, ‘‘O Nascimento de uma Nação’’, em 44º e ‘‘Rastros de Ódio’’ entra somente na 96ª posição. A lista é um engodo - nela, não há espaço para ‘‘Glória Feita de Sangue’’. O clássico antimilitarista de Stanley Kubrick é um raro e grande filme, um dos maiores já feitos e não apenas sobre o tema da guerra, que o cinema gosta tanto de visitar. ‘‘Glória Feita de Sangue’’ era inédito em vídeo no Brasil. Era. A Warner Home Vídeo lançou este mês no mercado para ser distribuído em venda direta ao consumidor. É daquelas obras que vale ter em casa. Encerra uma lição de cinema.
Em 45 anos de carreira, iniciada em 1953, com Fear and Desire, Kubrick fez só 12 filmes. O 13º é Eyes Wide Shut, que ainda não estreou e está sendo produzido debaixo do maior sigilo, com Tom Cruise e Nicole Kidman. Sabe-se, ou especula-se, que será um thriller psicanalítico. Talvez seja uma obra-prima. Há várias na carreira de Kubrick. Seus detratores dizem que ele é louco, obsessivo, perfeccionista e, se pudesse, prescindiria de colaboradores, fazendo seus filmes sozinho. É um misantropo. Talvez seja mesmo. Kubrick erigiu um muro do silêncio em torno de si mesmo desde que foi morar na Inglaterra, no começo dos anos 60. Ele é um homem de cinema no seu estado mais puro. Sabe que as boas histórias são importantes, mas não decisivas.
Kubrick gosta de dizer que, nos filmes, os diálogos vêm da literatura, a interpretação, do teatro, e a organização da cena, da fotografia. Por isso, cinema, para ele, é fundamentalmente montagem. Não deve ser por outro motivo que não reconhece como integralmente seu um filme que leva sua marca: ‘‘Espártaco’’, cuja montagem final foi feita por Kirk Douglas, na dupla condição de ator e produtor. Douglas tem um de seus melhores papéis em ‘‘Glória Feita de Sangue’’: faz o protagonista, o coronel Dax.
O cineasta sabia estar-se colocando em confusão ao iniciar o projeto. O filme trata de um caso polêmico da história militar da França neste século. ‘‘Glória Feita de Sangue’’ terminou proibido por muitos anos no país, só há pouco vindo a ser liberado. O antimilitarismo de Kubrick vai além do pacifismo. ‘‘Glória Feita de Sangue’’ trata da injustiça humana. Mostra um grupo social explorado por outro. Seu tema é a estratificação social da guerra. Logo no começo, o alto comando francês na 1ªGuerra deflagra o desastre: trama a tomada de um objetivo que, sabe antecipadamente, será malsucedida. Do castelo em que a trama é urdida a ação salta para as trincheiras. Luz e sombra. São os dois mundos de ‘‘Glória Feita de Sangue’’. No primeiro, com seus militares aristocráticos, filmados por meio de suntuosos movimentos de câmera no cenário rococó, o poder transforma-se em estilo e ritual. No segundo, o mundo dos soldados sacrificados, impera a brutalidade da guerra. Dax faz a ligação entre os dois mundos. Quando a ação militar falha e os soldados são levados à corte marcial, acusados de covardia, ele os defende. Numa cena particularmente reveladora, Dax, referindo-se à elite do Exército, repete a famosa frase de Samuel Johnson, segundo a qual ‘‘o patriotismo é o último refúgio dos canalhas’’.
Como todo grande filme de Kubrick, esse oferece uma glacial exposição do fim do mundo pela dissolução do único elo que une e organiza os homens: a palavra. No fim, antes da famosa canção que tem valor catártico, Dax diz ao general que quer comprá-lo: ‘‘Tenho pena de você.’’ (Poderia dizer: ‘‘Você me enoja.’’) A crítica de Kubrick vem pela palavra de um homem que, pertencendo a esse sistema aristocrático, dele se distancia por seu elevado grau de consciência. É o que aproxima, junto com as cenas do castelo, o Kubrick desse filme do cineasta da valsa, Max Ophuls, que operava, de dentro da ambiência do romantismo aristocrático e burguês, a destruição do último.

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