Um círculo questionável
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de junho de 2017
Alexandre Agabiti Fernandez<br>Folhapress 

The Circle é uma megaempresa de tecnologia, cujas características foram diretamente emprestadas à Apple e ao Google, do campus futurista cheio de jardins e atividades de lazer para os empregados às palestras carismáticas de Eamon Bailey (Tom Hanks), um dos donos, espécie de Steve Jobs redivivo.
Trabalhar na empresa é o sonho de muitos jovens como Mae (Emma Watson), que, no entanto, se aborrece num call center qualquer. Mas um dia a amiga Annie avisa que há uma vaga no Círculo e ela realiza seu sonho. Cheia de motivação, vai para o serviço de atenção ao cliente.
A empresa aposta pesado no desenvolvimento do "True You", uma plataforma de acesso on-line que serviria para "simplificar o caos da internet", e no "SeeChange", minicâmeras que são espalhadas aos milhões por aí e transmitem ao vivo.
Em seus discursos inflamados, Eamon defende esses projetos afirmando que tornariam o mundo melhor. Como um palavreado digno do Big Brother do romance "1984", de George Orwell, Eamon defende uma sociedade de transparência total martelando mantras como "segredos são mentiras" e "a privacidade é um roubo" Empolgadíssima com tudo isso, Mae acaba aceitando o convite de Eamon para ser a primeira a usar a tal câmera e transmitir tudo o que faz durante o dia aos internautas.
Mas a experiência de transparência de Mae acaba mal, provocando desastres em sua vida pessoal. É dessa forma rasteira e previsível que o filme - adaptado do romance de Dave Eggers, publicado em 2013 - questiona a renúncia à vida privada, às liberdades individuais e o primado da vigilância.
A vertiginosa ascensão de Mae na empresa nada tem de verossímil, ao contrário. Toma decisões aleatórias e só percebe que a transparência total é nefasta perto do fim do filme. A interpretação de Emma Watson também não ajuda, pois ela tem sempre a mesma expressão no rosto seja qual for a situação.
O desenlace é digno desse festival de inconsistências e afunda de vez o filme. O plano final do rosto de Mae, inexpressivo, parece contradizer tudo o que o filme, dirigido por James Ponsoldt, procurou criticar.


