Um cineasta velho de guerra
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de abril de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Arquivo FolhaRuy Guerra:O cinema não é um saci pererê que se apóia em uma pernaEm plena Sexta-Feira Santa um grupo de cineastas formado por Octavio Bezerra, Valêncio Xavier, Beto Bertagna e Roberto Belotti, sob a liderança do diretor Ruy Guerra, reuniu-se no auditório da Aliança Francesa, para tirar dali os melhores trabalhos de um lote de 180 filmes e vídeos que chegaram ao Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba.
Antes de começar a empreitada, aconteceu uma pequena revolução - Ruy Guerra achou por bem colocar duas sugestões em pauta. A primeira: criar um prêmio especial aos trabalhos já premiados, fazendo com que eles disputem entre si o galardão; a segunda: fundir numa mesma categoria os filmes e vídeos, acabando com a ditadura das bitolas.
Cloris de Souza Ferreira, mentora e realizadora do evento, recebeu as mudanças de braços abertos, por julgar que as inovações são um passo à frente em relação aos festivais. Para Ruy Guerra sua intervenção foi apenas uma questão de justiça.
Sobre a categoria hors-concours ela se faz necessária porque os filmes premiados repetem a façanha onde quer que se apresentem. Acaba se transformando num círculo que impede a inclusão de outros com uma qualidade ligeiramente inferior. Jurado de praticamente todos os festivais de cinema, ele encontrava quase sempre os mesmos filmes.
Claro que é muito bom para o ego do diretor, eles merecem por terem feito um trabalho importante, mas não acho que seja função dos festivais adular ego de diretores, justificou. A sua função é mostrar uma produção que está sendo feita e dar espaço para que outros filmes de qualidade encontrem seu espaço.
O diretor rebate qualquer alusão a protecionismo aos demais trabalhos. Não há protecionismo. Esta norma serve somente para filmes tidos com o galardão máximo: melhor filme, diretor e roteiro.
BitolasA segunda proposta de Ruy Guerra sobre a junção do vídeo e filme, deve-se ao que ele chama de espécie de racismo tecnológico. Em sua concepção o 35mm e o 16mm mantém-se num patamar superior. O vídeo estaria no terceiro escalão. É que ele surgiu muito tempo depois, e não houve até hoje uma real integração nos festivais de cinema.
Ao longo dos anos o vídeo cresceu, impôs sua presença e muitas vezes me encontrei confrontado com a contradição de ver um filme em vídeo. Isso mostra que não é o suporte nem a bitola que determina uma linguagem cinematográfica, argumenta. Apesar das especificidades, a dramaturgia é a mesma.
O diretor desafia quem pensa contrário a ele, a distinguir um filme em vídeo dos filmes rodados em 35mm e 16mm. Sob o ponto de vista de linguagem ninguém vai distinguir o que é uma coisa da outra. Então me parece que é muito mais justo acabar com esse racismo, tirar o pessoal do vídeo do gueto em que foi colocado, e pôr par a par com criadores de imagens como qualquer um- defende Ruy Guerra.
Com estas mudanças o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba terá como divisão o tempo - longas e curtas metragens - e gêneros - ficção, documentários, etc. - disputando entre si independente da bitola ou suporte em que foram feitos.
Projetos de Ruy GuerraO diretor tem no momento três projetos em andamento: a adaptação do romance Estorvo, de Chico Buarque (o roteiro está pronto, estou esperando uma complementação dos recursos financeiros para lançar a produção); uma segunda adaptação, a do romance Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, que está sendo produzida pela Morena Filmes e por último uma co-produção de Claudia Ohana com a MTV, sobre a saga de Anita Garibaldi.
Estar com três projetos em andamento seria o indício de que o cinema toma seu rumo novamente? Ruy Guerra diz que sim. É um sinal de vitalidade, que se transformará em conquista se os projetos se concretizarem. Pois, para ele, o cinema não é um saci pererê que se apóia em uma perna, ele precisa de três: a produção, distribuição e exibição.
Por maiores que sejam as dificuldades, leva-se adiante a produção. Mas a exibição e distribuição é que emperram o processo. Os mecanismos são absolutamente inexistentes, reclama Guerra. Os filmes brasileiros além de serem mal-exibidos, ainda necessitam de sucessos retumbantes para ressarcir parcialmente os gastos, explica o diretor.
As leis vigentes dão 50% da receita para o exibidor e os outros 50% dividem-se para o produtor e distribuidor. Como o distribuidor geralmente leva a margem de 30%, o produtor fica com 20%. Desses 20% tem que pagar despesas de cópias e publicidade. Acaba tendo como receita líquida uns 12% com muita sorte, disserta Ruy Guerra.
Copiamos tanta coisa dos Estados Unidos, e deveríamos imitar também o que eles têm de bom que é o sistema de distribuição e exibição, reflete o cineasta. Para o setor, a nível interno, as leis americanas têm como modelo 90-10, ou seja, para cada bilhete vendido 90% vai para o produtor e distribuidor e os 10% restantes para o exibidor.
Os americanos exportaram um modelo perverso que não corresponde em nada ao que eles se aplicam. O modelo que exportaram é justamente para dominar as cinematografias nacionais, acusa. É um sistema tão imoral que se for denunciado em qualquer Fórum Comercial Internacional, não resiste a uma análise, comenta.
Para ele a questão é haver boa vontade do governo em debater o assunto comercialmente. Não precisa entrar no lado cultural, insiste Ruy Guerra. Bastar mostrar que esse sistema não é aplicado dentro dos Estados Unidos.
MacdonaldizadoApesar de ser uma indústria imbatível a filmografia americana não é das melhores, continua o cineasta. Percentualmente o que se vê no Brasil são filmes americanos péssimos, tirando alguns que são bons. Acontece que com o poderio econômico e as grandes máquinas publicitárias, moldou-se o gosto do público. Sem outro produto competitivo, cria-se no público a ilusão de que o cinema é tão-somente aquilo que chega dos Estados Unidos.
Aqui não se vê o bom cinema europeu, asiático, africano. A pessoa não tem outra opção. Se um país come unicamente lanches da McDonalds, ninguém vai pensar que pode haver comida italiana, japonesa, grega, brasileira. O Brasil, em termos de cinema, foi macdonaldizado, dispara.
Ruy Guerra afirma que a produção nacional sempre teve mais público que os americanos, basta furar o cerco da exibição. É uma falácia pensar que filme americano é sinônimo de grande êxito. Tem filmes que não dão nada, acontece que ele já rendeu em outros mercados.
Percentualmente o brasileiro emplaca muito mais? Não tem a menor dúvida, responde. São poucos os filmes americanos que dão os números que dá o filme brasileiro em nosso mercado. Acontece que o filme brasileiro só tem este mercado, e o americano tem o planeta inteiro.
Também não é verdade que o brasileiro renega a produção nacional, segundo o diretor de alguns clássicos como Os Cafajestes. O público gosta de se ver, e gosta de ver o seu cinema, isso é natural. Você mostra uma foto artística tirada no Himalaia e vem outro com uma fotografia tirada aqui. Ora, você vai ver você, o vizinho, a tia - vai ver a sua identidade, o seu diário. Depois irá se deter no artístico, no Himalaia. É o teu retrato, a tua cara que está ali. O cinema é isso; tem que ser a cara das pessoas.


