Arquivo FolhaRuy Guerra:‘‘O cinema não é um saci pererê que se apóia em uma perna’’Em plena Sexta-Feira Santa um grupo de cineastas formado por Octavio Bezerra, Valêncio Xavier, Beto Bertagna e Roberto Belotti, sob a liderança do diretor Ruy Guerra, reuniu-se no auditório da Aliança Francesa, para tirar dali os melhores trabalhos de um lote de 180 filmes e vídeos que chegaram ao Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba.
Antes de começar a empreitada, aconteceu uma pequena revolução - Ruy Guerra achou por bem colocar duas sugestões em pauta. A primeira: criar um prêmio especial aos trabalhos já premiados, fazendo com que eles disputem entre si o galardão; a segunda: fundir numa mesma categoria os filmes e vídeos, acabando com a ditadura das bitolas.
Cloris de Souza Ferreira, mentora e realizadora do evento, recebeu as mudanças de braços abertos, por julgar que as inovações são um passo à frente em relação aos festivais. Para Ruy Guerra sua intervenção foi apenas uma questão de justiça.
Sobre a categoria ‘‘hors-concours’’ ela se faz necessária porque os filmes premiados repetem a façanha onde quer que se apresentem. Acaba se transformando num círculo que impede a inclusão de outros com uma qualidade ligeiramente inferior. Jurado de praticamente todos os festivais de cinema, ele encontrava quase sempre os mesmos filmes.
‘‘Claro que é muito bom para o ego do diretor, eles merecem por terem feito um trabalho importante, mas não acho que seja função dos festivais adular ego de diretores’’, justificou. ‘‘A sua função é mostrar uma produção que está sendo feita e dar espaço para que outros filmes de qualidade encontrem seu espaço’’.
O diretor rebate qualquer alusão a protecionismo aos demais trabalhos. ‘‘Não há protecionismo. Esta norma serve somente para filmes tidos com o galardão máximo: melhor filme, diretor e roteiro’’.
BitolasA segunda proposta de Ruy Guerra sobre a junção do vídeo e filme, deve-se ao que ele chama de ‘‘espécie de racismo tecnológico’’. Em sua concepção o 35mm e o 16mm mantém-se num patamar superior. O vídeo estaria no terceiro escalão. É que ele surgiu muito tempo depois, e não houve até hoje uma real integração nos festivais de cinema.
Ao longo dos anos o vídeo cresceu, impôs sua presença e ‘‘muitas vezes me encontrei confrontado com a contradição de ver um filme em vídeo’’. Isso mostra que não é o suporte nem a bitola que determina uma linguagem cinematográfica, argumenta. Apesar das especificidades, a dramaturgia é a mesma.
O diretor desafia quem pensa contrário a ele, a distinguir um filme em vídeo dos filmes rodados em 35mm e 16mm. ‘‘Sob o ponto de vista de linguagem ninguém vai distinguir o que é uma coisa da outra. Então me parece que é muito mais justo acabar com esse racismo, tirar o pessoal do vídeo do gueto em que foi colocado, e pôr par a par com criadores de imagens como qualquer um’’- defende Ruy Guerra.
Com estas mudanças o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba terá como divisão o tempo - longas e curtas metragens - e gêneros - ficção, documentários, etc. - disputando entre si ‘‘independente da bitola ou suporte em que foram feitos’’.
Projetos de Ruy GuerraO diretor tem no momento três projetos em andamento: a adaptação do romance ‘‘Estorvo’’, de Chico Buarque (‘‘o roteiro está pronto, estou esperando uma complementação dos recursos financeiros para lançar a produção’’); uma segunda adaptação, a do romance ‘‘Quase Memória’’, de Carlos Heitor Cony, que está sendo produzida pela Morena Filmes e por último uma co-produção de Claudia Ohana com a MTV, sobre a saga de Anita Garibaldi.
Estar com três projetos em andamento seria o indício de que o cinema toma seu rumo novamente? Ruy Guerra diz que sim. ‘‘É um sinal de vitalidade’’, que se transformará em conquista ‘‘se os projetos se concretizarem’’. Pois, para ele, ‘‘o cinema não é um saci pererê que se apóia em uma perna, ele precisa de três: a produção, distribuição e exibição’’.
Por maiores que sejam as dificuldades, leva-se adiante a produção. Mas a exibição e distribuição é que emperram o processo. ‘‘Os mecanismos são absolutamente inexistentes’’, reclama Guerra. Os filmes brasileiros além de serem mal-exibidos, ainda necessitam de sucessos retumbantes para ressarcir parcialmente os gastos, explica o diretor.
As leis vigentes dão 50% da receita para o exibidor e os outros 50% dividem-se para o produtor e distribuidor. ‘‘Como o distribuidor geralmente leva a margem de 30%, o produtor fica com 20%. Desses 20% tem que pagar despesas de cópias e publicidade. Acaba tendo como receita líquida uns 12% com muita sorte’’, disserta Ruy Guerra.
‘‘Copiamos tanta coisa dos Estados Unidos, e deveríamos imitar também o que eles têm de bom que é o sistema de distribuição e exibição’’, reflete o cineasta. Para o setor, a nível interno, as leis americanas têm como modelo ‘‘90-10’’, ou seja, para cada bilhete vendido 90% vai para o produtor e distribuidor e os 10% restantes para o exibidor.
‘‘Os americanos exportaram um modelo perverso que não corresponde em nada ao que eles se aplicam. O modelo que exportaram é justamente para dominar as cinematografias nacionais’’, acusa. ‘‘É um sistema tão imoral que se for denunciado em qualquer Fórum Comercial Internacional, não resiste a uma análise’’, comenta.
Para ele a questão é haver boa vontade do governo em debater o assunto comercialmente. ‘‘Não precisa entrar no lado cultural’’, insiste Ruy Guerra. ‘‘Bastar mostrar que esse sistema não é aplicado dentro dos Estados Unidos’’.
‘‘Macdonaldizado’’Apesar de ser uma indústria imbatível a filmografia americana não é das melhores, continua o cineasta. Percentualmente o que se vê no Brasil são ‘‘filmes americanos péssimos, tirando alguns que são bons’’. Acontece que com o poderio econômico e as grandes máquinas publicitárias, moldou-se o gosto do público. Sem outro produto competitivo, cria-se no público a ilusão de que o cinema é tão-somente aquilo que chega dos Estados Unidos.
‘‘Aqui não se vê o bom cinema europeu, asiático, africano. A pessoa não tem outra opção. Se um país come unicamente lanches da McDonald’s, ninguém vai pensar que pode haver comida italiana, japonesa, grega, brasileira. O Brasil, em termos de cinema, foi macdonaldizado’’, dispara.
Ruy Guerra afirma que a produção nacional sempre teve mais público que os americanos, basta furar o cerco da exibição. ‘‘É uma falácia pensar que filme americano é sinônimo de grande êxito. Tem filmes que não dão nada, acontece que ele já rendeu em outros mercados’’.
Percentualmente o brasileiro emplaca muito mais? ‘‘Não tem a menor dúvida’’, responde. ‘‘São poucos os filmes americanos que dão os números que dá o filme brasileiro em nosso mercado. Acontece que o filme brasileiro só tem este mercado, e o americano tem o planeta inteiro’’.
Também não é verdade que o brasileiro renega a produção nacional, segundo o diretor de alguns clássicos como ‘‘Os Cafajestes’’. ‘‘O público gosta de se ver, e gosta de ver o seu cinema, isso é natural. Você mostra uma foto artística tirada no Himalaia e vem outro com uma fotografia tirada aqui. Ora, você vai ver você, o vizinho, a tia - vai ver a sua identidade, o seu diário. Depois irá se deter no artístico, no Himalaia. É o teu retrato, a tua cara que está ali. O cinema é isso; tem que ser a cara das pessoas’’.

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