No ano do centenário de nascimento de Luis Buñuel, a Mostra Internacional de Cinema faz ampla retrospectiva de sua obra, com destaque para a ignorada fase mexicana
Raras foram as exceções. No calendário 2000 de festivais internacionais de cinema, de notoriedade e prestígio variáveis, um nome vem frequentando catálogos com notável assiduidade. Neste caso muitíssimo particular, não se trata de aniversário-pretexto para invocar somente história e ciclos. O que costumava ser apenas uma data – a conhecida e frequentemente inútil efeméride – tornou-se agora um significado. Desnudando a pomposidade e espantando o cerimonial (‘‘a implacável ritualística social’’, dizia ele genericamente na autobiografia ‘‘Meu Último Suspiro’’), é premente rever a obra transcendental do espanhol Luis Buñuel. E foi de olho na urgência que a organização da 24ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo preparou um ciclo-homenagem com 21 filmes (veja a relação completa nesta página) de um total de 33 títulos assinados pelo diretor, em 49 anos de carreira, com carinhosa ênfase para o controvertido, pouco visto, ainda hoje incompreendido e consequentemente mal amado período mexicano de melodramas.
Palmas para o evento brasileiro: não é qualquer curadoria que consegue agrupar dois terços da filmografia de alguém tão ilustre em momento mundial tão disputado. Até quinta-feira, em salas e horários diversos, quem for a São Paulo pode ainda ver ou rever momentos fundamentais criados por um dos maiores artistas do século que se despede. E do que está para chegar.
Don Luis Buñuel morreu ateu, ‘‘graças a Deus’’, mas beatificado como santidade cinematográfica. A ‘‘intelligentsia’’ internacional já o havia canonizado como um dos imortais profanos do cinema. Paradoxalmente, foi a partir de sua morte, em 1983, que o mais ilustre dos cineastas de língua hispânica teve revelado e amplificado, para os admiradores de seu cinema feito na França e na Espanha, o momento ‘‘meloxicano’’, vale dizer, sua incursão pelo melodrama ‘‘hecho en Mexico’’. Festivais, cinematecas, museus de imagem e som, clubes de cinema, redes estatais de televisão: nas duas últimas décadas, de uma ou outra forma, as entidades iniciaram um processo de penitência e reparação, uma operação de resgate cultural do mais alto significado.
Mas num primeiro momento, a revelação mais ampla dos frutos de sua passagem pelo México a partir de 47, depois de uma abortada tentativa hollywoodiana, trouxe perplexidade, além de dúvidas éticas e estéticas. Poderia um diretor de ‘‘mexicanadas’’ ser afinal um cineasta tão importante? Deixando de lado obras-primas plenamente reconhecidas como ‘‘Los Olvidados‘‘e ‘‘El’’, o melodrama deve a Buñuel altos e baixos, filmes mais interessantes como ‘‘El Bruto’’ e ‘‘Abismos de Pasión’’ e outros descartáveis, como o folhetim ‘‘Una Mujer Sin Amor’’. Essas contradições levantaram obviamente uma polêmica. Cineasta duvidoso e reputação artificial foram algumas das acusações a ele imputadas. Da beatificação à quase desmitificação, o caminho percorrido.
Aos poucos, no entanto, as peças estão se encaixando. Uma vez detectada a resistência, as coisas ficam mais fáceis. A ignorância e/ou o desprezo pela melô mexicano, no fundo, não é casual. Afinal de contas seria o desejo, talvez inconsciente, de impor uma imagem de Buñuel como grande diretor mais digerível, mais culto, mais apresentável à sociedade. Assim, em vez de aceitar os filmes mexicanos, bárbaros e primitivos, é preferível ficar com os franceses, mais refinados, melhor acabados, com ‘‘boa’’ fotografia e ‘‘bons’’ atores.
É sempre bom reafirmar: Buñuel jamais perseguiu a perfeição: para ele, o academicismo sempre foi o inimigo natural da arte. Ao se submeter ao sistema de produção do cinema mexicano, ao aceitar que seus filmes fossem rodados em duas ou três semanas em cenários de cartolina e fotografia vulgar, ele atuava com plena consciência e deliberado consentimento, absolutamente convicto de sua postura moral diante do mundo. Ao tomar como protagonistas alguns dos piores atores de língua espanhola em todos os tempos, o diretor desafiava todas as regras mas não comprometia a integridade de seu trabalho, já que seus personagens estavam acima dos intérpretes e não o contrário, como ocorre com irritante frequência. E é justamente deste extremado ‘‘miscasting’’ – escalação errada de atores – que ele obtém resultados admiravelmente surrealistas ou definitivamente subversivos.
No que se refere à técnica utilizada nas produções mexicanas, detalhes a destacar. O sentido de economia, a concisão, a eficácia narrativa, tudo é digno do cinema americano mais ortodoxo. O Buñuel ‘‘meloxicano’’ é tão simples e efetivo como o cinema de Howard Hawks. ‘‘El’’ (no Brasil , ‘‘O Alucinado’’), no olho apurado da câmera, tem o estilo visual dos melodramas psicanalíticos de Michael Curtiz. Esta consistência visual fica descartada dos títulos da fase francesa, à exceção dos elegantes ‘‘O Diário de Uma Camareira’’(64) e ‘‘Belle de Jour’’(67). E é claro que a cor viria trazer problemas a Buñuel, até então acostumado aos duros planos em preto e branco talhados a cinzel. Por sorte somente seus últimos seis filmes foram a cores, resultando formalmente acadêmicos em contrastes com desenfreada virulência de seus roteiros.