Um cineasta com visão muito particular
Diz Carlos Reichenbach: ‘‘De uma coisa eu não abro mão: fazer filme como quero, com a visão que quero’’. Pois muito bem, tais palavras são uma espécie de máxima particular do cineasta que está conduzindo ‘‘Dois Córregos’’, sua décima segunda cria depois de quatro anos sem fazer um longa-metragem - o último foi ‘‘Alma Corsária’’ (94). Desta vez, como explica o cineasta, sua visão particular de fazer cinema ganhou bons acréscimos tecnológicos tais como câmeras de última geração. ‘‘Antes se faziam filmes com baixo custo. Hoje não. Para se entrar com tudo no mercado é preciso ter um certo aparato tecnológico’’- reconhece.
‘‘Dois Córregos’’ é um drama intimista que narra o rito de passagem de duas garotas, da adolescência à maturidade e que tem, como pano de fundo, a situação política que a ditadura impôs ao Brasil. ‘‘Trata-se de uma visão mais feminina do que política. O mais importante nessa história é a transformação dos personagens’’- avisa Reichenbach. ‘‘É tudo um grande flashback narrado do ponto de vista de uma mulher madura. É um filme sobre sentimento em que os personagens se entendem através de um ponto de equilíbrio: a música’’- completa ele.
A música. Segundo o diretor, é ela que vai alinhavar o filme. Na tela, a música será interpretada por uma exímia pianista, no caso Luciana Brasil, que também na vida real é uma virtuosa pianista. Afinal, ela desbancou 100 candidatas inscritas. ‘‘Ela (Luciana) pensou que iria apenas executar a trilha sonora ou no máximo fazer uma cena. Quando disse que iria ser uma personagem ela ficou assustada mas aceitou. E se adaptou fácil porque é uma pessoa de grande sensibilidade’’- diz ele.
Trata-se de uma história saída da imaginação. O filme recebeu o nome de Dois Córregos por ele entender que a cidade é um local especial, mágico e que, portanto, poderia ajudar a estruturar toda a trama. ‘‘Dois Córregos é uma maravilha, ainda tem arco-íris. Além disso, aqui ocorre o encontro de três grandes rios, o que é muito bonito’’ - diz ele poeticamente. A pretensão de Reichenbach, além de fazer um belo filme, é fazer com que ele caia nas graças do público brasileiro que parece ter acordado, tarde é certo, para o fato de que se estão fazendo boas produções cinematográficas nacionais.
O cineasta reconhece isso, mas parece ficar com um pé atrás. É por isso que ele também está de olho no público de outros países. ‘‘Claro que há essa pretensão porque um filme não se paga no Brasil. Por isso espero que ‘Dois Córregos’ consiga entrar no mercado externo com facilidade’’- diz ele.
Mesmo prestigiado e com alguns prêmios na prateleira, Carlos Reichenbach ainda não se pode dar ao luxo de viver única e exclusivamente de cinema. ‘‘Não se sobrevive só de cinema no Brasil, e eu digo isso com muita segurança. É por isso que tenho umas 20 profissões paralelas como jornalista e professor de cinema na USP ’’- avisa.
(A.M.J.)

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