Ele morreu há uma década, aos 71 anos, em abril de 1992, poucas horas antes que a Academia de Hollywood conferisse um tardio e mais que merecido Oscar especial (e afinal ironicamente póstumo) ao conjunto da obra de 30 filmes iniciada em 1955 – 28 longas e dois curtas. Notável porta-voz da complexidade sócio-econômica da vida na Índia, mas por outro lado sempre buscando também a universalidade ao construir uma rica, extensa galeria de personagens, o bengalês Satyajit Ray nunca teve no Ocidente divulgação à altura de seu vasto talento – inclusive na Europa, sempre atenta e precursora nas descobertas artísticas do Oriente, o cinema de Ray ficou ganhou holofotes apenas nas passarelas dos festivais de Cannes, Veneza e Berlim, sem nunca chegar aos grandes circuitos de exibição.
É por esta e outras razões que o ciclo programado a partir de hoje pelo Telecine Classic deve ser recebido com generoso entusiasmo. Sempre às 22 horas, até domingo, o canal por assinatura exibe a maioria dos títulos essenciais da filmografia de Satyajit Ray, não faltando obviamente o carro-chefe conhecido como ‘‘Trilogia de Apu’’, e pelo menos mais dois títulos de reposição obrigatória. Ao todo, será exibido um quarto do total da obra do cineasta. Além de obviamente respeitável, é fração surpreendente a ser devorada com o apetite represado pela permanente privação.
Integrante cativo de qualquer lista de cem melhores filmes da história do cinema, ‘‘Canção da Estrada’’ (Pather Panchali, 55) abre não só a trilogia famosa, mas a carreira de Ray e naturalmente o ciclo. Nesta assombrosa obra-prima realizada há quase meio século, o diretor se baseou em novela de B.B. Bannerjee para contar o nascimento e a infância do pequeno Apu em uma aldeia pobre em Bengala. É um relato sobre a vida rural, a família e as relações da comunidade. Parece tudo banal, mas o gênio de Ray transformou este material. Com sensível habilidade, ele apresenta um quadro rico e encantador sobre a alegria e o sentido de maravilha da infância. E ao mesmo tempo, consegue apresentar uma Índia mais acessível e mais compreensível aos olhos ocidentais.
Seguindo a programação, amanhã e quarta, os dois filmes posteriores que compõem a trilogia: ‘‘O Invencível’’ (Aparajito, 57) e ‘‘O Mundo de Apu’’ (Apu Sandar, 59), registrando a adolescência e a maturidade do personagem. Cada um a sua maneira, são igualmente impressionantes. Nos três filmes, o realismo lírico e até mágico de Ray rompia com a tradição escapista do cinema hindu, imprimindo a marca registrada que o identificaria até o fim: uma fé calorosa e afetuosa na capacidade que tem a humanidade de aprender, crescer, ir adiante.
Os outros títulos previstos refletem as preocupações do cineasta com a classe média. Além do admirável ‘‘A Sala de Música’’ (Jalsaghar, 58), drama sobre a crise de valores com ressonâncias no cinema de corte profundamente humanista de Akira Kurosawa, está no ciclo ‘‘Três Mulheres’’ (Teen Kanya, 61), uma preciosidade em apresentação inédita fora da Índia – segundo informa o site do Telecine, pela primeira vez serão vistas juntas, num mesmo filme, as três histórias que justamente justificam o título. ‘‘A Grande Cidade’’ (Manahagar, 63) e ‘‘A Esposa Solitária’’ (Charulata, 64), marcantes retratos da burguesia, são também atentas radiografias pré-feministas, o que de resto não é pouco para a época em que vieram à luz.
Detalhe: foi a partir da divulgação do cinema de Satyajit Ray que o mundo ouviu, amplificada, a sonoridade místico-exótica de um músico que em seguida, pela mão dos Beatles, faria parte da história do pop na segunda metade do século 20. Na trilha da ‘‘Trilogia de Apu’’, a assinatura de Ravi Shankar, comandando um trio de cítara, tabla (Alla Rakha) e sarod (Ali Akbar Khan).

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