Um ciclo vital sobre a humanidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de janeiro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Ele morreu há uma década, aos 71 anos, em abril de 1992, poucas horas antes que a Academia de Hollywood conferisse um tardio e mais que merecido Oscar especial (e afinal ironicamente póstumo) ao conjunto da obra de 30 filmes iniciada em 1955 28 longas e dois curtas. Notável porta-voz da complexidade sócio-econômica da vida na Índia, mas por outro lado sempre buscando também a universalidade ao construir uma rica, extensa galeria de personagens, o bengalês Satyajit Ray nunca teve no Ocidente divulgação à altura de seu vasto talento inclusive na Europa, sempre atenta e precursora nas descobertas artísticas do Oriente, o cinema de Ray ficou ganhou holofotes apenas nas passarelas dos festivais de Cannes, Veneza e Berlim, sem nunca chegar aos grandes circuitos de exibição.
É por esta e outras razões que o ciclo programado a partir de hoje pelo Telecine Classic deve ser recebido com generoso entusiasmo. Sempre às 22 horas, até domingo, o canal por assinatura exibe a maioria dos títulos essenciais da filmografia de Satyajit Ray, não faltando obviamente o carro-chefe conhecido como Trilogia de Apu, e pelo menos mais dois títulos de reposição obrigatória. Ao todo, será exibido um quarto do total da obra do cineasta. Além de obviamente respeitável, é fração surpreendente a ser devorada com o apetite represado pela permanente privação.
Integrante cativo de qualquer lista de cem melhores filmes da história do cinema, Canção da Estrada (Pather Panchali, 55) abre não só a trilogia famosa, mas a carreira de Ray e naturalmente o ciclo. Nesta assombrosa obra-prima realizada há quase meio século, o diretor se baseou em novela de B.B. Bannerjee para contar o nascimento e a infância do pequeno Apu em uma aldeia pobre em Bengala. É um relato sobre a vida rural, a família e as relações da comunidade. Parece tudo banal, mas o gênio de Ray transformou este material. Com sensível habilidade, ele apresenta um quadro rico e encantador sobre a alegria e o sentido de maravilha da infância. E ao mesmo tempo, consegue apresentar uma Índia mais acessível e mais compreensível aos olhos ocidentais.
Seguindo a programação, amanhã e quarta, os dois filmes posteriores que compõem a trilogia: O Invencível (Aparajito, 57) e O Mundo de Apu (Apu Sandar, 59), registrando a adolescência e a maturidade do personagem. Cada um a sua maneira, são igualmente impressionantes. Nos três filmes, o realismo lírico e até mágico de Ray rompia com a tradição escapista do cinema hindu, imprimindo a marca registrada que o identificaria até o fim: uma fé calorosa e afetuosa na capacidade que tem a humanidade de aprender, crescer, ir adiante.
Os outros títulos previstos refletem as preocupações do cineasta com a classe média. Além do admirável A Sala de Música (Jalsaghar, 58), drama sobre a crise de valores com ressonâncias no cinema de corte profundamente humanista de Akira Kurosawa, está no ciclo Três Mulheres (Teen Kanya, 61), uma preciosidade em apresentação inédita fora da Índia segundo informa o site do Telecine, pela primeira vez serão vistas juntas, num mesmo filme, as três histórias que justamente justificam o título. A Grande Cidade (Manahagar, 63) e A Esposa Solitária (Charulata, 64), marcantes retratos da burguesia, são também atentas radiografias pré-feministas, o que de resto não é pouco para a época em que vieram à luz.
Detalhe: foi a partir da divulgação do cinema de Satyajit Ray que o mundo ouviu, amplificada, a sonoridade místico-exótica de um músico que em seguida, pela mão dos Beatles, faria parte da história do pop na segunda metade do século 20. Na trilha da Trilogia de Apu, a assinatura de Ravi Shankar, comandando um trio de cítara, tabla (Alla Rakha) e sarod (Ali Akbar Khan).


