Um chorão faz 70 anos
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terça-feira, 03 de junho de 1997
Zeca Corrêa Leite, De Curitiba 
DivulgaçãoArlindo dos Santos (de boina), com seu violão e cercado de amigos, na festa de aniversárioTeve chorinho, muito chorinho no Sebo de Elite, em Curitiba, para comemorar os 70 anos de Arlindo dos Santos, violonista que é considerado por seus pares como um dos instrumentistas mais importantes do Brasil. São 50 anos dedicados à música, uma história que se mistura aos nomes lendários dos cantores do rádio, que vinham ao Paraná se apresentar na PRB-2, como os mais íntimos costumam chamar a Rádio Clube.
Simpatizantes do choro, atraídos pela música, e amigos de Arlindo que sabiam da homenagem, lotaram a sala, rodeando o grupo de chorões que, no melhor estilo, puxava a fieira do repertório. Ouviu-se de tudo ali, incluindo serestas e até o baianíssimo Dorival Caymmi, na voz de Milton Fadel, cantando Marina. Foi a única música a sair do gênero instrumental.
Jovem e velha guarda estiveram representadas na reunião que começou às 11 e meia e terminou às duas e 15 da madrugada. Da ala antiga, o violonista Moacir Azevedo permaneceu firme até o fim, quando tocaram a derradeira saideira, depois de outras anunciadas sem sucesso, com Doce de Coco, de Jacob do Bandolim, atendendo à sugestão do pandeirista João Luiz.
João Egashira e Sérgio Albach, ambos na casa dos 20, faziam parte da turma de jovens instrumentistas. Como o guitarrista Mário Conde, do grupo Tocaia, devidamente integrado à roda, tocando violão. Os chorões mais velhos são todos eles uma escola, afirmou. Arlindo é desses mestres que a gente ouve e respeita.
Durante uma temporada de dois anos tocando na Europa, Conde sentiu na pele e na alma a falta da música brasileira. É fora daqui que a gente toma consciência da importância e da necessidade de tocar nossa música. O chorinho caiu como uma luva nesse sentimento de orfandade.
Com certeza sou um chorão, orgulha-se. Sempre que pode está nas rodas de choro. E para deixar ainda mais patente o espaço que o gênero ocupa entre ele e seus companheiros, Mário Conde comentou que no próximo disco do Tocaia haverá uma faixa com Parangolé, de Pixinguinha.
Meio século musical Arlindo é um dos pioneiros do choro no Paraná. Se hoje esse tipo de música ainda existe entre nós, devemos isso a ele, acrescentou João Luiz, o único a tocar pandeiro no grupo. Arlindo é reconhecido pelo César Farias, disse como uma frase definitiva.
César Farias, pai de Paulinho da Viola, é um dos maiores violonistas sete cordas deste País. Fez parte do lendário Conjunto Época de Ouro, e reconhecer o paranaense como um músico do mesmo naipe é a mesma coisa que passar diploma de doutorado.
Arlindo é meu mestre. Só deestar ao lado dele a gente já vai aprendendo, confessou João Egashira, violonista de 25 anos, que começa a ser identificado com o choro em Curitiba. Ele e Sérgio Albach, clarinetista, responsável pelo movimento em torno dos 70 anos do músico. Arlindo é de importância vital para o chorinho no Paraná. É o que mais toca e conhece a arte, depôs Albach.
Feliz com os amigos à sua volta e com a tertúlia rolando muito além do previsto, Arlindo dos Santos era só emoção. Sua história confunde-se com nomes famosos como o flautista Abel Ferreira e Waldir Azevedo que levou o som do cavaquinho às alturas.
Hoje completo 70 anos de idade, mas 50 desses anos são dedicados à música, explicou o violonista à Folha2. Leia-se, ao choro, embora relute um pouco em centrar a carreira num único gênero. O princípio dessa caminhada, ainda nos anos 30, vai parar nas lembranças de um Arlindo menino que gostava de ver um tio tocar violão.
Pegou gosto pelo instrumento e quando pôde colocar as mãos em um, era de quatro cordas. Depois chegou a um de seis até celebrizar-se entre os parceiros como o Arlindo das sete cordas. Em público começou se apresentando com dois irmãos cegos, Arnaldo e Alcindo. Animavam festas caseiras: Todo sábado tinha aniversário para a gente tocar.
Em 1948 ingressou na B2, ao lado de Janguito do Rosário, depois de ter passado pela Guairacá. Permaneceu no conjunto de Janguito - outro nome a virar lenda no chorinho paranaense - até a morte do flautista, em 1984. O choro não morre nunca; ele passa de geração a geração, costuma dizer para os alarmados que temem a modernização e o fim da tradição.
A música brasileira em geral é comigo mesmo, ufana-se o violonista que nas noites de sexta-feira toca num restaurante, a partir das 9 e termina ali pelas 11. Mas tem uma recaída quando confessa que o choro é minha vida. Empunhando seu sete cordas, Arlindo dá vazão à sua paixão maior, e é difícil para qualquer ouvinte admitir que ali está um artista autodidata e intuitivo, que nunca soube decifrar uma nota musical. Toca de ouvido.


