Um chá na Academia
Reprodução Filho de imigrantes russos, Saul Bellow nasceu em 1915 no Canadá. Cresceu em Chicago, cidade que aparece como pano de fundo em seus contos de Trocando os Pés pelas Mãos recém-lançado pela Editora Rocco. Em 1976 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura pelo romance Agarre a Vida.
Nos contos de Trocandos os Pés Pelas Mãos, a maioria dos protagonista narradores são intelectuais famosos e invejáveis. Nas relações do cotidiano são pessoas normais que não perdem nenhuma oportunidade para citar um livro erudito ou um autor importante. Caminham em círculos como a vida caminha em círculos, seja dentro ou fora dos círculos acadêmicos. Em suas histórias não há grandes acontecimentos, apenas a memória desenrolando o embaraçado novelo do passado. Talvez como uma senhora senil fazendo tricô no canto da sala, hora e horas solitária e insegura, em silêncio, presa na sala como um intelectual preso em citações.
O mais belo No conto Uma Travessa de Prata o narrador, após ver o pai morrer numa cama de hospital, começa a relembrar os acontecimentos e sua relação com o pai desde a infância. Trata-se do texto mais belo do livro, onde Bellow substitui a intelectualidade pelo homem comum que, depois de velho, consegue perceber detalhes do mundo pela simples mudança da rotina.
A capacidade de Bellow criar personagens sucessivos e descrevê-los de maneira ampla em poucas linhas dando-os ambientação e personalidade sólida é uma de suas virtudes como literato.
No conto que dá título ao livro que reúne cinco narrativas, Trocando os Pés pelas Mãos é uma carta de um respeitável acadêmico destinada a uma bibliotecária que ofendeu anos atrás. A carta é uma tentativa de escapar de um processo judicial ocasionado por uma simples frase proferida no passado que compromete sua carreira. A origem do problema é irônico: a bibliotecária faz um comentário de que o professor usando boné parece um arqueólogo. Ele responde: e a senhora parece uma coisa que acabo de desenterrar.
(M.L.)
Trocando os Pés Pelas Mãos e Outras Histórias - de Saul Bellow, Editora Rocco, tradução de Aulyde Soares Rodrigues, 302 páginas, R$ 27,00.





