Um certo olhar
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de dezembro de 2013
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
São Paulo - Existem convenções de que as listas de melhores tenham de ser organizadas com dez - dez filmes, livros, CDs, espetáculos etc. No cinema, em 2013, foram três filmes franceses, três norte-americanos, dois brasileiros, um português e um espanhol - "Um Estranho no Lago", "Azul É a Cor Mais Quente", "Zarafa", "Gravidade", "Homem de Aço", "Rush - No Limite da Emoção", "O Som ao Redor", "São Silvestre", "O Estranho Caso de Angélica" e "Blancanieves".
Foi um ano peculiar. Teve bons filmes desde o início - "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho, estreou na primeira semana de 2013 -, mas houve uma arrancada final e novembro e dezembro fornecem mais da metade dos destaques. O público cresceu, o share do cinema brasileiro - a participação da produção nacional no mercado - também aumentou.
O que é o cinema?, perguntava-se, há bem uns 60 anos, o crítico francês André Bazin. Cada um terá suas respostas, e elas poderão ser diferentes, porque o cinema não vem com instruções de uso e cada um faz as escolhas daquilo que gosta. O cinema está na boca aberta de Adèle Axerchopoulos, que expressa tudo - desejo, gula, assombro - no Azul de Abdellatif Kechiche.
Está em momentos privilegiados que compuseram a grandeza do ano. Kevin Costner olhando o filho criança que brinca e antecipando o super-herói em que ele se transformará no poderoso Homem de Aço, de Zach Snyder. O narrador tribal que reencontra o tempo perdido e as personagens de sua ficção, na verdade de suas memórias, num lance assim digno de Marcel Proust e de seu tempo reencontrado, em Zarafa, de Remi Bezançon. O canto dos trabalhadores no deslumbrante fecho da Angélica de Manoel de Oliveira. Ou a troca de olhares entre James Hunt e Nikki Lauda, entre Chris Hemsworth e Daniel Bruhl antes da decisiva corrida do Japão, em Rush, de Ron Howard.
A beleza e a grandeza do cinema está em filmes que não necessariamente ficaram entre os cinco, ou os dez. O grito de desespero de Charlotte Rampling, decifrado o enigma de "Eu, Anna", em que ela foi dirigida por seu filho, Barnaby Southcombe. A desmontagem de Cate Blanche Dubois Blanchett em "Blue Jasmine", de Woody Allen. O pungente plano final, a morte do assassino profissional sentado naquela cadeira, frente ao mar e vendo o tempo, como sua vida, se escoar em "Salvo - Uma História de Amor e Máfia", de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza. A cena intimista do diálogo entre o anão e a elfa de "O Hobbit 2 - A Desolação de Smaug", de Peter Jackson, tão íntimo e revelador das diferenças que se compara às digressões amorosas de Hong sang-soo no filme mais nouvelle vague do ano que se encerra, "Filha de Ninguém".
O cinema brasileiro participou dessas belezas, desses refinamentos. O duelo e a cena de sexo entre Fabrício Boliveira e Íris Valverde em "Faroeste Caboclo", de René Sampaio. Formaram o casal hetero do ano, uma bela dupla birracial ocupando espaço no ano em que o par gay reinou soberano - as garotas de "Azul", os homens de "Um Estranho no Lago", de Alain Guiraudie. Talvez o grande legado do cinema no ano tenha isso esse olhar sobre o direito à diferença. O toque da elfa e do anão quando ela salva a vida dele em "Hobbit 2" é uma possibilidade que vira impossibilidade em "Blancanieves", no desejo do anão, belo como é, pela topureira no filme de Pierre Berger.
O cinema é a melodia do olhar, dizia o poeta Nicholas Ray. É uma janela aberta para a realidade, ou a fantasia, e de ambas as formas é um instrumento do humanismo e uma ferramenta para se entender o mundo.
São Paulo é a grande personagem de Lina Chamie em "São Silvestre" e o filme sobre a corrida é, na verdade, sobre o esforço humano e, como investigação de linguagem, sobre o cinema. É um filme sobre tudo, mas alguém que não entre no clima de sua admirável simetria audiovisual dirá que é o oposto - sobre nada. Tudo ou nada. Não foi o grande Yasujiro Ozu que fez escrever na sua lápide, sem nome, o ideograma japonês de nada, de vazio?
O cinema é uma invenção dos autores e uma reinvenção dos espectadores. Tudo está, no limite, no nosso olhar sobre o olhar que eles nos propõem. O voyeurismo, o espetáculo do corpo, está em Kechiche como em Guiraudie, malgrado suas diferenças. Então, vamos lá - o que foi o cinema, o que ainda está sendo em 2013?
O olhar paternal de Kevin Costner, o olhar doloroso de Henry Cavill, o vento que agita as folhas das árvores no Lago, os quadros de Emma/Léa Seydoux que, passada sua paixão por Adèle, eternizam o que foi aquele momento na vida de ambas.


