Um certo Maradona (e uma certa maratona)
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha2 
Poderia servir como treino intensivo para as Olimpíadas. Na agenda diária há testes de resistência para todos os gostos, aptidões e resistências. Maratona é a especialidade de todos por aqui, principalmente para ver filme atrás de filme, quase sem trégua. Mas também para ver o que vai pelos muitos espaços colaterais, participar das dezenas de coletivas, obter informações que não estão à disposição nos canais mais visíveis. E buscar um ou outro momento para as chamadas necessidades vitais, comer, dormir, respirar...
Os argentinos encerraram sua passagem pela seleção oficial. E por falar em esporte, fora de competição, mas muito badalado, o documentário ''Maradona por Emir Kusturica'' é o que se pode chamar de elegia incondicional a um ídolo. O diretor sérvio, duas vezes Palma de Ouro, fã confesso de futebol e do polêmico atleta portenho conhecido nas rodas da malandragem como ''la mano de Diós'' (graças àquele famoso golzinho feito com a mão, na verdade bem mais do diabo do que de Deus...), realizou um trabalho que não se cansa de incensar Diego Armando Maradona.
Tem lá suas razões, com certeza, já que o jogador foi mesmo bom de bola. Mas este é um filme-culto na verdadeira acepção da palavra, embora não deixe passar o lado dark do ''crack'' - Maradona fala também muito sobre as drogas e a culpa. O que mais impressiona é a celebração de Maradona como instituição religiosa - o filme mostra que há de fato uma Igreja Maradona na Argentina, com fiéis rezando ''Maradona que estás en el cielo, santificado sea tu nombre...''
Na coletiva, o jogador até que se comportou muito bem, elogiou Ronaldinho e disse que o Barcelona vai fazer enorme bobagem deixando o Milan levá-lo. Mas não deixou de alfinetar Pelé. Que, aliás, andou por esses dias mais uma vez falando o que não devia sobre o argentino. O diretor Kusturica diz que fez o filme não para comparar performances de ninguém, mas...
Na ficção, a Argentina se despediu com um filme mais uma vez incomum de Lucrecia Martel, que os cinéfilos de Londrina conhecem por ''A Menina Santa''. No hipnótico ''La Mujer sin Cabeza'', como de hábito, a diretora passeia sua câmera nos limites entre o real e o imaginário de uma mulher, Verônica, ali pela fronteira do consciente e do inconsciente. O personagem atropelou (ou não) alguém numa rodovia, e em torno deste fato (ou ilusão) o filme vai fundo na psiquê da mulher e no entorno social. Nada é óbvio, e tudo convida a continuar o dever em casa, depois da projeção. Não é, no entanto, filme para entrar na faixa de premiação.
Alívio para o diretor Fernando Meirelles. Domingo em Lisboa, um comovido José Saramago aprovou a adaptação que o diretor realizou de ''Ensaio Sobre a Cegueira'' e que há uma semana abriu oficialmente o Festival de Cannes. Segundo o jornal espanhol ''El País'', que documentou o encontro entre os dois, o octogenário Saramago, embora recuperado de grave doença, não teve permissão médica para vir a Cannes. E assim um ansioso Meirelles voou direto para Lisboa levando uma cópia do filme.
Ao final da projeção Saramago nem conseguia falar por conta da emoção. Mas logo disse a Meirelles que estava tão feliz com o filme como quando terminou de escrever o livro. Segundo o diário madrilenho, um ainda mais emocionado Meirelles não resistiu e beijou a cabeça do romancista português Nobel de literatura.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes


