O que é preciso para fazer um bom CD? Boas músicas, claro. Mas e para se fazer um CD que seja tudo de bom? Além de boas músicas, que elas sejam diferentes - que tenha samba, choro, bolero, jazz... Acrescente letras criativas, poemas que toquem lá no fundo do coração; parceiros que se completem e intérpretes com vozes acariciantes, penetrantes, marcantes. O CD ''Pássaro Pênsil'', de Flávio Henrique, tem tudo isso - tem até uma benção vocalizada. E se esqueci de mencionar alguma coisa, acredite: está lá.
''Pássaro Pênsil'' é o sétimo CD da carreira de Flávio Henrique e mesmo sendo um trabalho autoral com 14 canções, quase todas inéditas, o disco é todo feito com participações especiais, desde a mais jovem revelação da música mineira, Antônio Loureiro, ao consagrado Milton Nascimento. Aliás, não é só na hora de compor que Flávio mostra talento mas também quando escolhe os parceiros e intérpretes que vão tocar e cantar com ele.
A música que dá título ao CD tem letra do poeta Carlos Rennó e é cantada pelo próprio Flavio, junto com Lô Borges e com participação especial do cantor indiano Madan Gopal, que faz dos vocalizes quase que uma benção ao fundo. Outra poesia belíssima é ''Mãe'', de Flavio e Guilherme Wisnik, que abre o álbum. Uma delícia a faixa ''Vi'', a cara de Luiz Tatit, perfeita na voz de Ná Ozzetti.
O disco tem a capacidade de ser surpreendente, do começo ao fim. Em ''Água Marina'' a sensação é que a música está suspensa no ar. Você não vai capturar as notas, elas é que vão capturar você, na voz acariciante de Marina de la Riva. E depois, vão te jogar no chão quando você ouvir ''Sangue Seco'', uma visão nua e crua da violência contemporânea. A letra é de Flávio Henrique, que aliás, só assina como letrista uma outra canção do CD: ''Gato de Armazém'', que personifica à perfeição o parasita social que suga o sangue da nação e a paciência dos brasileiros.
As surpresas não terminaram: ''Amor do céu, Amor do Mar'' é uma confissão de Milton Nascimento, dedicada nominalmente a Elis Regina e tem ainda ''Dentro de Mim Mora um Monstro'', uma brincadeira séria com a poeta curitibana Estrela Lemynski.
A qualidade musical é evidente até para quem não é músico profissional. Depois de ''babar'' nos arranjos, não é surpresa nenhuma ver o nome de Wagner Tiso entre os convidados. Aliás, o mesmo acontece com Zeca Baleiro cantando ''Choro do Fim do Mundo'', Zeca Assumpção tocando baixo, Tiago Costa no piano, Leila Pinheiro, Lincoln Cheib, Marina Machado, Tatiana Parra. Tudo isso embalado para presente, com projeto gráfico assinado por Otávio Bretas e desenhos de Mônica Sartori - que evocam o pássaro pênsil flutuando no ar. Se sobrasse espaço para mais uma foto na galeria que vem no álbum, podia ser uma minha - aplaudindo de pé.
''Arrasto minha asa só pra quem me interessa/ Amigos da preguiça, inimigos da pressa/ Na hora do trabalho eu sempre finjo de morto / Não deixo stress alheio me causar um desconforto'' (Trecho de ''Gato de Armazém'').

SERVIÇO
- Pássaro Pênsil
Flávio Henrique
Gravadora - Biscoito Fino

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