UM CD MUITO ACIMA DA MÉDIA
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terça-feira, 17 de abril de 2001
Nelson Sato de Londrina 
Para muitos, tanto faz chamá-lo de Guinga ou de Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, seu nome verdadeiro: o desconhecimento será o mesmo. Já no círculo de iniciados, virou lugar comum festejá-lo como o mais genial compositor vivo da música popular brasileira, superando inclusive a Chico Buarque.
Guinga, que completa 50 anos em junho, está lançando esta semana o CD Cine Baronesa pela gravadora Caravelas (com distribuição da Sony Music). É seu quinto disco, o terceiro inspirado em memórias pessoais dos subúrbios do Rio de Janeiro. O título é uma homenagem à sala que marcou sua juventude e que hoje sedia um templo evangélico. Como em seus álbuns anteriores, o repertório reúne gêneros variados incluindo balada, toada, frevo, blues, valsa, choro, samba, fox-trote e baião.
As parcerias dividem-se entre Aldir Blanc, Nei Lopes, Sérgio Natureza e Hermínio Belo de Carvalho. Os arranjos trazem assinaturas de Gilson Peranzzetta (na maioria das faixas), Paulo Aragão e Nailor Proveta Azevedo. Guinga canta em quatro faixas. Outras composições trazem as vozes de Chico Buarque, Fátima Guedes, Ney Lopes e do jornalista Sérgio Cabral que participa declamando uma homenagem ao Rio de Janeiro.
O Quarteto Maogani, formado por quatro violonistas, também comparece em participação especial. Apesar de soar desconhecido para a maioria do público, Guinga não é nenhuma revelação. Começou na época dos festivais, no fim dos anos 60, e teve canções em pencas gravadas na década seguinte. Como violonista, acompanhou dúzias de ilustres. Foi com ele no estúdio, por exemplo, que Cartola fez a primeira gravação de O Mundo é um Moinho.
Elis Regina gravou dele Bolero de Satã. A carreira de compositor ia bem. Mas veio a década de 80 e ele sucumbiu junto com toda uma geração, banido das rádios e tevês. Só em 1990 é que retornou às atividades. O novo CD enfileira destaques, pontos acima de uma média já alta. Há o lirismo de Melodia Branca, a faixa de abertura, dedicada à sua filha Branca.
Há a faixa-título, com os vocalises impecáveis de Fátima Guedes, com acompanhamento do Quarteto Maogani. Há a toada Nem Mais um Pio, com participação do percussionista Marcos Suzano e tratamento de cordas em arranjo de Peranzzetta. Há ainda o blues Yes, Zé Manés, inspirado em Billie Holiday e interpretado por Chico Buarque.
Enfim, um discaço cujos méritos apenas avalizam as homenagens já programadas ao compositor nesta temporada que incluem os lançamentos de uma biografia de autoria do jornalista Mario Marques e de um songbook organizado pela UniRio. A seguir, leia entrevista com o artista carioca.
Seu novo disco retoma a idéia de memorialismo musical, apresentando temas e conceitos ligados à sua infância nos subúrbios do Rio. É um disco de continuidade e sem rupturas?
É um disco-irmão do Cheio de Dedos (1996) e do Suíte Leopoldina (1999). Minha música continua a mesma, não vou mudar. Mas ao mesmo tempo estou sempre mudando para continuar o mesmo. O homem que não muda, que se fixa em suas verdades estabelecidas, cria limo. O que não dizer que se deva ser volúvel, subserviente a modismos. Nada disso. Tem que ter antenas para saber para onde aponta o mundo. As verdades da grande melodia e da grande harmonia são imutáveis. Eu não acredito numa grande música sem uma grande melodia ou sem uma grande harmonia. Essa coisa só de conversa, não me pega. É claro que eu admiro o rap, gosto do rap. Tem pulsação, ritmo. Mas quando o ritmo vem casado com a melodia e com a harmonia, aí se dá a grande música. Tem que fechar todas as pontas.
Você canta em quatro faixas do CD. Como você avalia seu desempenho como intérprete?
Já cantei mais. No Delírio Carioca (1993), cantei em nove faixas. Mas cantei mal, talvez por inexperiência, ansiedade... Nunca serei um bom cantor, nem me proponho a isso. Mas acredito que posso amadurecer como intérprete de minhas canções. Acho que estou bem melhor nesse novo disco. Melhorei muito, talvez por causa do palco. Fui perdendo a ansiedade, fui deixando de dramatizar, de pôr ênfases desnecessárias.
Por que você ficou uma década longe da música, dedicando-se apenas à odontologia?
Eu sempre quis ser compositor popular. Comecei minha carreira como músico. Dos 19 anos aos 26 toquei com Cartola, João Nogueira, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alaíde Costa...Mas eu não queria ser músico. Pensava em compor e ser conhecido. Demorei para perceber que o compositor tem que ir para o palco para ser conhecido. Quando vi, eu já estava no ostracismo. De 1977 a 1990, fiquei longe dos palcos e passei a estudar e compor alucinadamente. Fiz um trabalho de formiga, de concentração absoluta. Estudava muito, mas não de maneira formal, embora já tivesse feito 5 anos de violão clássico e lesse em partitura. Ouvia muita música, jazz e clássico principalmente, mas também música instrumental brasileira e os grandes compositores populares. Eu tinha consciência do valor de minha obra. Tinha certeza que um dia ela seria reconhecida. Mas vivia desanimado, numa fase suicida, até que o Aldir Blanc apareceu na minha vida e trabalhou minha auto-estima. Ele colocou meu nome na imprensa e começou a me apresentar para outros artistas. Daí, gravei meu primeiro disco e percebi que eu era um artista viável.
Você é aclamado por músicos de renome, mas sua música não chega ao grande público. Você acha que o fato de a maior parte de sua obra ser instrumental, contribuiu para isso?
Eu sou um compositor popular. Gravei músicas instrumentais para viabilizar minha carreira no exterior, pelo fato dela ser uma linguagem universal. Mas 90% de minhas composições não letradas foram feitas para receber letras. São poucas as de caráter puramente instrumental. Faço música pensando em palavras. Tenho boas idéias para dar títulos a meus discos, e também para minhas canções. Eu inclusive sonho com palavras. Outro dia sonhei com as palavras acontecência e críspida.
Como vai sua carreira no exterior?
Vai engatinhando. Estive duas vezes na Espanha e uma vez na Dinamarca. Em maio, vou a Cuba. Em janeiro do ano que vem, vou aos Estados Unidos. Agora estou fechando uma turnê para a Itália.
Dá para conciliar a música e a ondontologia?
Há muitas divergências. São duas profissões diferentes, são mundos completamente distintos. Há horas em que minha cabeça está tão ligada a uma ou à outra atividade, que eu preciso de um tempo para me assentar. Hoje, por exemplo, estou atendendo sem parar em meu consultório e para falar de música tenho que me ter um tempo para mudar de registro. Mas no final, uma atividade completa a outra. Há uma terapia mútua. Às vezes estou tão esgotado de música, voltando de alguma excursão, que é um alívio quando entro no consultório. Mas há tambémn convergências: a acuidada estética, o cuidado com os movimentos. Dificilmente eu deixaria a ondontologia para viver só da música. Afinal, que brasileiro não deixa de guerrear em duas frentes? Não posso abrir mão. O país é muito instável, sujeito a pacotes econômicos com todos os riscos que trazem.


