Um casamento minado pela intolerância
Graças à distribuição alternativa, mais e mais chegam ao circuito exibidor brasileiro títulos centrados em conflitos no Oriente Médio. ''A Noiva Síria'', que estréia hoje em Londrina (confira a programação de cinema na página 2), vem se somar a este segmento sem mostrar cenas cruas nem dilemas sangrentos. É tão somente uma família fraturada - e aqui o tema da célula familiar vem na medida para jogar luzes sobre o tema, de modo geral tão debilitado e infantilizado pela indústria americana de cinema.
O tom aqui combina a comédia, o drama, o absurdo e a denúncia de um sistema burocrático, intolerante e opressivo, em especial com as mulheres. Concentrada em algumas poucas horas, a trama se situa na pequena localidade drusa de Majad Sham, nas Colinas de Golam, ocupadas por Israel desde 1967. A noiva síria do título, Mona (Clara Khoury), é parte de uma extensa família de drusos ortodoxos que formam uma minoria islâmica de ascendência árabe, habitantes do Líbano, Israel, Síria e Jordânia. O pai dela, o seco Hammed (Makram Khoury, veterano ator israelense e pai de Mona/Clara também na vida real), é um reconhecido ativista pró Síria que acaba de ser solto sob fiança de uma prisão em Israel.
Mona vai se casar com um primo que não conhece pessoalmente, um comediante de TV que vive na Síria. Assim que ela cruzar a fronteira, passando pelo controle de sírios e israelenses, não poderá mais voltar. A sensação que paira sobre o filme é simultaneamente de festa e pesar. Dispersados pelo mundo, os membros da família vão chegando para o dia especial, com passaportes em que consta ''nacionalidade indefinida''.
Numa primeira parte, ''A Noiva Síria'' apresenta seus personagens e antigos conflitos entre eles. Não há muita margem para discussão, dada a limitada tolerância do pai, cegamente apegado às tradições. Há a irmã mais velha da noiva, a liberal, infeliz mas insubmissa Amal (Hiam Abass, de ''Munique'' e ''Paradise Now''), que quer estudar em Haifa enfrentando o marido ortodoxo; há o irmão casado com uma russa; há outro, renegado pelo pai, que mora na Itália e vive de negócios escusos; e há ainda um outro, que vive do outro lado da fronteira e se comunica com os demais com um alto-falante.
A fonte motriz deste grupo, e no fundo a protagonista essencial, é Amal, cujo papel decisivo será aliviar tensões, estimular a fé nas transformações e abrandar intransigências. É ela quem abre e fecha o filme, justificadamente. E entre a noiva e o noivo se colocam os labirintos de uma barreira, aliás várias, levantadas por burocratas carregados de má vontade ou indiferença. As complicações que cercam o casamento são na verdade derivadas direta ou indiretamente da situação política entre Síria e Israel, mas também consequência das tensões existentes dentro da própria família drusa, da rigidez religiosa, da intolerância e do limitado papel social reservado à mulher.
O diretor israelense Eran Riklis, que antes investigou por três anos a condição dos drusos e os labirintos da burocracia fronteiriça, realizou um filme cuja comprovada eficácia - entre muitos, recebeu o Premio de Publico no Festival de Locarno - está na maneira simples, direta, sem preciosismos estilísticos, como expõe seu drama, na descrição justa de seus ótimos personagens centrais criados por um elenco impecável.
''A Noiva Síria'', que fala sobre o espírito humano que não se dobra diante das adversidades, é comovente porque sabe como mostrar grandes conflitos em histórias mínimas. (C.E.L.J.)





